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“Somos resilientes, mas não temos super-poderes” – carta aberta de uma Contabilista Certificada

Há profissões que todos sabem que existem. E há profissões de que quase ninguém se lembra… até ao dia em que alguma obrigação fiscal não é cumprida. É nesse momento que aparece o Contabilista Certificado.

Somos nós que garantimos que salários são processados, impostos são entregues, contribuições são pagas, empresas cumprem a lei e milhares de empresários conseguem dedicar-se ao seu negócio.

Trabalhamos quase sempre longe dos holofotes. Quando tudo corre bem, ninguém repara no nosso trabalho. Quando algo falha, somos quase sempre os primeiros a ser responsabilizados.

Sou Contabilista Certificada há 22 anos.

Ao longo destas mais de duas décadas acompanhei empresas, vi negócios nascerem, crescerem e, infelizmente, também encerrarem. Passei por crises económicas, alterações fiscais profundas e pela pandemia. Sempre procurei exercer a minha profissão com rigor, sentido de responsabilidade e respeito pelos meus clientes.

Mas nunca senti a profissão tão exigente como atualmente.

Hoje, os Contabilistas Certificados vivem numa corrida permanente contra o tempo. As obrigações fiscais e contributivas multiplicam-se. A legislação muda constantemente. Os prazos acumulam-se. Os clientes exigem respostas imediatas. E as plataformas informáticas do Estado, das quais dependemos diariamente, continuam demasiadas vezes a falhar.

Quando isso acontece, o prazo não deixa de existir. Quem absorve esse atraso somos nós. Somos nós que prolongamos o horário de trabalho. Somos nós que trabalhamos durante a noite. Somos nós que sacrificamos fins de semana e feriados para que empresas e cidadãos não sejam penalizados.

Este ano foi apenas mais um exemplo.

Constrangimentos na entrega do IRS. Dificuldades no IRC. Problemas persistentes na Segurança Social Direta com a criação de subutilizadores, impedindo durante semanas a emissão de documentos durante o horário normal de trabalho. Alterações legislativas divulgadas poucos dias antes da sua entrada em vigor. Prazos prorrogados para domingos, depois de semanas marcadas por greves em serviços públicos.

Sempre que os sistemas falham, somos nós que compensamos. Sempre.

A Ordem dos Contabilistas Certificados tem procurado defender a profissão e reconhecer estas dificuldades.

Mas existe uma realidade incontornável.

Os Contabilistas Certificados não podem, na prática, fazer greve. As responsabilidades assumidas perante clientes e as pesadas coimas associadas ao incumprimento impedem-nos de parar. Se pararmos, outros serão prejudicados. Por isso continuamos. Mesmo cansados. Mesmo exaustos. Mesmo quando já não conseguimos distinguir o fim do horário de trabalho do início da vida pessoal. Porque essa fronteira praticamente deixou de existir.

Recebemos telefonemas durante o jantar. Respondemos a mensagens ao fim de semana. Levamos o computador de férias “por precaução”. Interrompemos aniversários, férias e momentos em família porque surgiu mais uma obrigação urgente.

É verdade que cada profissional deve gerir os seus próprios limites.

Mas também é verdade que a realidade da profissão tornou essa gestão cada vez mais difícil.

Chegamos ao final do dia completamente esgotados. Chegamos ao final do ano sem energia. E, muitas vezes, sem qualidade de vida. A Ordem diz que somos resilientes. É verdade.

Mas permitam-me acrescentar uma frase que resume aquilo que muitos colegas sentem:

Somos resilientes, mas não temos super-poderes.

Não somos máquinas. Não somos infalíveis. Não conseguimos trabalhar indefinidamente sem descanso. Há doenças que não aparecem em radiografias. Há ansiedade. Há burnout. Há desgaste emocional. Há famílias que vivem diariamente com profissionais fisicamente presentes, mas mentalmente ausentes. Porque a cabeça nunca desliga.

Está sempre a pensar no próximo prazo. Na próxima obrigação. Na próxima alteração legislativa. Na próxima responsabilidade.

Nos raros momentos de silêncio faço sempre a mesma pergunta.

Tenho 22 anos de profissão.

Durante estes 22 anos vivi, em grande medida, condicionada pelas obrigações de terceiros.

Onde ficou a minha própria história? Onde ficaram os momentos que perdi? Será que vivi plenamente? Ou limitei-me a sobreviver, em piloto automático, para cumprir prazos?

Não escrevo estas palavras para acusar ninguém.

Também não escrevo para pedir privilégios. Escrevo porque acredito que chegou o momento de olhar para esta profissão de forma séria.

Peço aos Senhores Deputados que analisem os números.

Quantos alunos entram nas licenciaturas em Contabilidade? Quantos chegam à Ordem dos Contabilistas Certificados? Quantos desistem poucos anos depois? Quantos trabalham diariamente noites e fins de semana? Quantos vivem sob níveis permanentes de pressão? Quantos sofrem em silêncio com doenças invisíveis provocadas pelo desgaste profissional?

Perguntem-se se esta profissão merece continuar a ser tratada como se este desgaste fosse normal. Perguntem-se se não merece, pelo menos, uma reflexão séria sobre o seu reconhecimento como profissão de desgaste rápido.

Não peço menos trabalho.

Não peço menos responsabilidade.

Peço apenas condições para exercer a minha profissão com dignidade.

Peço sistemas informáticos que funcionem. Peço legislação publicada atempadamente. Peço prazos compatíveis com a realidade. Peço respeito pelo tempo de quem, todos os dias, ajuda o Estado a cumprir a sua própria missão.

Se esta carta conseguir fazer um único Deputado parar por alguns minutos para pensar na realidade dos Contabilistas Certificados, talvez nada mude amanhã.

Mas eu saberei que fiz aquilo que estava ao meu alcance.

Porque acredito que uma profissão essencial ao funcionamento de um país também merece que alguém conte a sua história.

E esta é apenas uma delas.

Uma Contabilista Certificada, com 22 anos ao serviço das empresas, dos cidadãos e do Estado.

Patrícia Gomes

(Contabilista Certificada)

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