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A primeira sessão do julgamento do empresário que responde pelo homicídio de um jovem de 24 anos, em Casével, no concelho de Santarém, ficou marcada pelo facto do arguido ter prestado declarações e pela análise de provas forenses que desmentem a sua versão dos factos.

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Rui Mendes, de 56 anos, foi ouvido na tarde desta terça-feira, 24 de novembro, e começou por “lamentar profundamente” o “desfecho trágico” da briga que ocorreu no exterior do Café Comendador, em Casével, pedindo desculpas aos pais, familiares e amigos da vítima mortal, João Pedro Monteiro.
Sobre os factos em julgamento, o arguido garantiu ao coletivo de juízes que nunca teve intenção de esfaquear o jovem, e que este se feriu ao cair sobre a sua “navalha do petisco”, que tirou do bolso e abriu apenas para tentar afastar os três homens que o agrediam com grande violência.
Rui Mendes admitiu que terá provocado a rixa ao atirar uma garrafa de cerveja ao carro de um amigo de João Pedro Monteiro, mas só depois deste lhe ter feito um gesto feio com o dedo, em tom desafiador, ao passar por ele.
O empresário envolveu-se então numa troca de murros com ele, a que rapidamente se juntaram João Pedro Monteiro e um terceiro amigo, ainda não identificado nos autos.
Dizendo que chegou a temer pela sua vida ao ser espancado, o arguido afirmou que puxou da arma do crime em legítima defesa, e foi neste momento que alguém o empurrou a si para o chão e João Pedro Monteiro para cima de si.
Rui Mendes garantiu ainda que bateu com a cabeça no para-choques de um carro, perdeu os sentidos e não se lembra de mais nada, até acordar sem ninguém ao seu redor.
Entrou então novamente no café, dirigiu-se à casa de banho e lavou-se, sem ter percebido ainda que, da briga, tinha resultado alguém esfaqueado.
Segundo disse, só se apercebeu da gravidade da situação e da morte do jovem quando já estava detido dentro de uma viatura da GNR, antes de ser transportado para o posto de Pernes.

Quando a gota não joga bem com a perdigota
Em mais de duas horas de depoimento, o empresário nunca conseguiu justificar o facto da vítima ter morrido não com um, mas com dois golpes de navalha, ambos sobre a ilharga esquerda e com 20 centímetros de distância entre si, como explicou um dos três inspetores da Polícia Judiciária (PJ) ouvidos nesta sessão.
Segundo o mesmo inspetor, os vestígios hemáticos das roupas recolhidas pela PJ durante a investigação também parecem contrariar o relato do arguido, uma vez que as manchas de sangue teriam outro padrão se a vítima mortal tivesse mesmo caído sobre si, durante a briga.
A arma do crime, que a PJ não conseguiu encontrar, também foi discutida nesta sessão, com a defesa de Rui Mendes a salientar o facto dos autos referirem uma perfuração de 9 a 10 centímetros, quando a lâmina da navalha de Rui Mendes teria apenas 6 a 7 centímetros, conforme o próprio explicou.
A defesa de Rui Mendes levantou também bastantes reticências em relação à credibilidade da investigação levada a cabo pela PJ, que foi condicionada por algumas das restrições impostas pela conjuntura de combate à pandemia.
Durante o depoimento, a Procuradora da República manifestou-se muito renitente em aceitar algumas das explicações dadas pelo arguido, chegando mesmo a considerar que algumas partes “não têm lógica nenhuma”.
Rogério Alves, o advogado das assistentes no processo (a mãe e a irmã da vítima mortal), disse também “partilhar da perplexidade” da magistrada do MP em relação à versão de Rui Mendes.
O ex-bastonário da Ordem dos Advogados quis saber, por exemplo, porque razão um dos amigos de Rui Mendes, que estava no exterior a assistir à sova que empresário disse estar a levar, não interveio em sua defesa.
Em resposta, Rui Mendes disse que não sabia ao certo, mas que, provavelmente, terá sido porque esse amigo é casado, e arranjaria problemas ao ter que explicar à esposa o que fazia àquela hora, naquele local, caso se metesse em confusões.



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