Algures numa manhã de Abril de 1975. O Boeing 707 da TAP, que tomara na Beira, aterrou na Portela após um voo, suave e tranquilo de dez horas, com breve paragem em Luanda. Simples escala técnica, para reabastecimento, que o voo ia lotado com os passageiros todos tendo só um destino: Portugal.
“Senhores passageiros, por motivos de segurança, por favor, corram as cortinas”, aconselhou o comandante quando aterrámos em Angola.
A voz nos altifalantes espalhadas no avião, máscula, de tom forte e grave, calma, pausada e suave, acordou-me do torpor a que me dedicara há um bom par de horas.
Ao subir, no aeroporto da Beira, os últimos degraus da escada para o avião tinha-me invadido aquela estranha sensação de que estava em casa e ter regressado ao útero da minha mãe.
Naquele dia eu dera por finda uma epopeia, inesperada, que durou quase setenta e duas horas.
Porque um filho da mãe de um guarda fiscal português, em “regime de transição de poderes para o aparelho da FRELIMO”, complicara-me a vida. A mim, um jovem inocente, e humilde militar do Exército Português, recém disponibilizado. “Não tem carimbo, não embarca” foi a sentença do zeloso ditador.
Nem a exibição da caderneta militar fazendo cota de que passara à disponibilidade em 1 de Janeiro de 1975, demoveu o pequeno títere.
Tratava-se da exigência de carimbos na “guia de desembaraço” que o governo de transição de um grupelho de “históricos” engendrou após se locupuletarem com o que havia de melhor em Moçambique a título de “souvenirs”.
Saudáveis condutas políticas, cujos danos colaterais nem sempre matam mas deixam mossa.
Falou o comandante e logo as luzes diminuíram de intensidade envolvendo os passageiros na penumbra. De repente o silêncio foi rei e a angústia rainha.
Sabíamos que algo de mal se estava a passar em Angola: FNLA, UNITA e MPLA andavam aos tiros e à catanada a matarem-se uns aos outros.
Na luta fratricida, vá-se lá saber alimentada por quem, alguns mísseis não abatiam só aves. Sábio conselho, que a prudência assim mandava, mas felizmente nada aconteceu.
Benditos comandantes e abençoadas hospedeiras daqueles tempos glórios da TAP que nos davam conforto e segurança a fazer-nos sentir como se estivéssemos em casa!
Chegada em manhã solarenga e fresca a Lisboa. Feiticeira encantada, que deixara ao abandono dos meus sonhos há uma dezena de anos, era ainda menino. Recebeu-me o pai, num forte abraço, a cheirar a tabaco e Aqua Velva como sempre.
“Filho, vamos passear por Lisboa a fazer horas para o comboio até Faro”.
“Bora lá!”. Deambulamos pelo Rossio, paramos numa tasquinha da Rua Augusta e deliciei-me com o melhor prato de “favas com chouriço” de que tenho memória. Acamado em goles de minúsculos copos de tinto espumoso tirados de barril.
Prosseguimos pelos Restauradores e cortamos para os abarracados do Martim Moniz. Na Praça da Figueira, que o pai era de rompantes, decidiu que o escriba deveria ter uma boa mala, “daquelas à James Bond, estás a ver Vítor Hugo?”.
“Samsonite, pai? Nem penses, custa dois contos!”
“Vales mais que isso, filho”, deixei-me render à sedução e ao argumento de peso.
Passagem pelo quartel de Campolide, onde o progenitor, garboso sargento do Exército da “comissão liquidatária das companhias do ultramar” foi a despacho. Pois que a gestão do Estado não pode parar. Pode tudo estar mal, mas que pareça estar tudo bem.
Nas ruas, a fervilhança era grande e nos quartéis a soldadesca mandava.
Seguimos para a estação do Barreiro. Apanhar o comboio da noite para o Algarve, por fim com destino a Faro: o “comboio correio”.
Parecia termos mudado de dimensão. Algo de surreal, um granel inimaginável pelos padrões de conduta dos nossos dias condicionados às “selvies” e “YouTube”. Carruagens a entrar na gare e já apinhadas, tomadas a salto por hordas de sapos barbudos, barulhentos com odores de suor, sebo e álcool.
Viagem de seis horas, pela madrugada e Alentejo adentro, a pé firme ao andar da carruagem. “Pai, não há revisor? Nós aqui de pé, com bilhetes pagos, e esses tipos por aí esparramados uns em cima dos outros, um soldado a ocupar o lugar de dois, e ninguém diz nada?”. O fedor que pairava no ar, que não detalho por ser demasiadamente explícito, acabou por se tornar um ambiente natural por habituação.
“É melhor ficares quieto e não dizeres nada, que eles agora é que mandam. São os SUV”.
Já amanhecia quando, finalmente, chegamos a Tunes, estação de encruzilhada do sotavento e barlavento algarvios.
Aquela horda de fugitivos dos quartéis, finalmente, ia seguir outros destinos e refugiar-se no sossego e aconchego das suas casas durante umas quantas dezenas de horas, mas muitos deles deixaram um rasto de porcaria e destruição. Os demais passageiros, como eu e o meu pai, cordatos, resignados e tolerantes, pudemos finalmente respirar algum ar puro e esticar as pernas.
Estarei neste descanso e remanso não sei até quando.
Afinal a vida é tão limitada e frágil para uns e tão certinha para outros que não sei se me devo juntar ao silêncio dos vencidos ou mandar à merda os vencedores.



























