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Fazer pela vida

vitor catulo

Vítor Catulo

A Porto Editora, fundada em 1944 pelo pedagogo e professor universitário Vasco Teixeira, continua felizmente bem portuguesa resistindo à voragem dos grandes grupos económicos de capitais estrangeiros, como a castelhana Leia. Até que me provem o contrário, os lobis estrangeiros sugam o País, não ajustam a economia e não criam riqueza. Muitos são de obscuras origens e alguns de remotas paragens que nunca nos disseram nada nem nada têm a ver connosco e com a nossa forma de estar e de ser. A pretexto de virem resolver a crise, instalaram-se neste torrão luso – que por acaso foi pátria de Camões, Mouzinho e Pessoa – definitivamente pela mão e bons ofícios dos administradores que ocupam os gabinetes de São Bento e da Professor Gomes Teixeira sob o olhar atento, cândido e doce do inquilino de Belém.

Mas neste assalto acelerado, febril e doentio ao património de Portugal, felizmente ainda vão havendo muitas empresas familiares que subsistem e vão resistindo e sempre ao invasor. A Porto Editora é uma delas. Bem administrada pelos herdeiros, que não dão passos maiores que a perna, continua a ser uma referência genuinamente nacional na área da cultura que nos deve orgulhar. Recuemos no tempo e ver-se-á que serão hoje raros os portugueses adultos que, em discussões académicas nos liceus e universidades, nas repartições e esquadras de polícia, ou nos quartéis e academias, que não tenham recorrido ao famoso dicionário da Língua Portuguesa, o “tira-teimas”. Havia até quem fizesse apostas: “Estás a ver? Lê aqui. Vá, agora pagas a bica!”.

Ajustando-se aos tempos modernos, com serenidade e bom senso, a editora alargou as suas áreas de intervenção no mercado dos livros e promove desde 2009 uma sondagem na internet sobre as palavras que mais marcaram cada ano que passou em Portugal. Este ano votaram vinte e dois mil internautas e a palavra mais votada foi “corrupção”. Não nos deve surpreender por motivos óbvios, mas causou-me alguma surpresa saber que a segunda mais votada tivesse sido “xurdir”. Tendo-me como pessoa de mediana cultura e razoavelmente informado, confesso que nunca tal houvera lido ou ouvido. Tivesse eu jogado o jogo das palavras com um transmontano de cepa rija iria irremediavelmente ao castigo e teria de lhe pagar a bica!

Não resisto em pensar, pois, que tenha havido uns contornos de corrupção na votação com a montagem de uma simpática cadeia de cumplicidade transmontana a dizer que o mirandês está vivo. Perdoe-se pela misericórdia da intenção e ainda bem se tal aconteceu. Na verdade, em contraponto àquela peçonhenta que conspurca a nossa sociedade e nos deve envergonhar, xurdir tem um significado positivo: fazer pela vida; tem força, garra, dá alento, vigor, nobreza!

Estamos no começo de um novo ano. Desejam-se felicidades, saúde e sucessos a todos e a tendência natural é passar em revista factos e pessoas que marcaram os últimos doze meses. Pelo lado bom e pelo lado mal.

De há uns anos para cá os portugueses têm passado mal e passaram muito mal este ano! Fustigados por toda a espécie de tropelias e malfeitorias engendradas pela classe política em conluio e comunhão de interesses com uma certa banca aldrabona e muita alta finança imoral, é admirável, dir-se-ia mesmo que é um milagre, verificar como há famílias unidas, fortes de pedra e cal, a irem à luta: a xurdir! É de facto verdadeira, e valiosíssima, a crença de que o Bem acaba sempre por se sobrepor ao Mal.

Será pois, de inteira justiça, nesta primeira crónica de 2015, eu homenagear a Família Portuguesa coesa como a grande figura, a grande campeã do ano! E já agora, simbolicamente, assim a talhe de foice, não resisto a citar aqui um exemplo de tenacidade e coesão familiar que conheço: há década e meia, com uma regularidade quase diária, passo de manhã a tomar a bica e a ler o jornal numa churrasqueira-restaurante em São Domingos. Santarém é uma cidade onde eu gosto de viver. De seu nome o “Alecrim”, o estabelecimento. Como se trata de uma churrascaria, mais movimentada lá mais para o meio do dia, não é difícil encontrar o jornal “livre”, um viciozinho piedoso de leitura a juntar àquele outro de beber café que ganhei nos tempos de farda.

Por prática e experiência acumulada de muitos anos, sei como é difícil encontrar de manhã um jornal à boa vida sem cliente num café ou numa pastelaria de bairro: o primeiro reformado que o apanhe não o larga mais até chegar a hora da sopa! Daí que o “Alecrim” acabou por ser local de poiso habitual deste cronista acidental. Com o passar dos anos, necessariamente vão-se criando alguns laços de simpatia e empatia que ultrapassam a mera relação de cortesia comerciante-cliente. É próprio da natureza das relações entre humanos. Trocam-se palavras, fala-se do tempo, daquele penálti do Benfica que o árbitro não assinalou e contam-se anedotas, tudo num ambiente informal e ameno. Ameno? Tudo menos ameno, o ambiente de frenesim que se respira naquela casa logo de manhã! Naqueles cerca de vinte minutos que por ali permaneço até seguir novo rumo – invariavelmente uma caminhada pela cidade – dá gosto ver os quatro irmãos Matos naquela azáfama matinal em preparos para mais um dia de laboração. Sob a batuta da mãe – velha senhora de perfil austero e matriarca da família – que veio de Angola há muitos anos com a sua prole e por esta é incondicionalmente respeitada, o “Alecrim” é uma orquestra bem afinada onde cada elemento conhece bem e sabe o instrumento que toca. A música, traduzida em comida bem confeccionada servida a preços honestos, sai brilhante e apetecível durante todo o dia.

São estabelecimentos de restauração como o “Alecrim” que tornam interessantes as cidades. Dão-lhes alma, alegria e fluidez.

Tal como milhares de outros pequenos negócios familiares bem geridos à custa de muito esforço e muita imaginação e criatividade, também são precisas pessoas em Portugal que trabalhem e que não chorem sobre o leite derramado. Pode ser que um dia venhamos a ter bons políticos, mas por enquanto não podemos contar muito com eles. Até lá estamos entregues à nossa sorte e há que xurdir.

Desejos de um bom e vigoroso ano para todos!

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