Comemoraram-se ontem na Normandia, noroeste da França, os 70 anos daquele que na História ficou conhecido por Dia D. O Dia Decisivo, the Decisive Day.
Estiveram presentes, como convidados de honra, três mil veteranos que participaram na operação, que levou o nome de código Overlord, e os líderes atuais dos países envolvidos nos combates, incluindo a chanceler Angela Merkl.
As operações militares, iniciadas pouco depois das zero horas de 6 de Maio de 1944 com o lançamento de 24 mil paraquedistas americanos, britânicos e canadianos, seguido do desembarque de mais de 160 mil soldados ao longo de 80 quilómetros de praias da Normandia, durariam mais de três meses até a região ser considerada oficialmente libertada do jugo do louco de Berlim em 18 de Setembro. Pereceram dezenas de milhares de soldados e vinte mil civis. Um balanço trágico.
Valeu a pena? Claro que valeu! Citando Fernando Pessoa, tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E se for pela Liberdade de quem a gozará, tanto melhor.
Idealizada três anos antes, após sucessivas derrotas em que o continente Europeu, com exceção de Portugal e Espanha, se deixava subjugar sob as botas cardadas do nazismo, a operação foi preparada no maior segredo entre os serviços de inteligência dos EUA de Franklin Roosevelt, da Grã-Bretanha de Sua Majestade o rei Jorge VI e do seu primeiro ministro Winston Churchill. Para fazer o trinco contava-se a Leste com os exércitos de Stalin. Preponderante a ação das tropas do ditador!
Dita a experiência que não deve haver pactos com o predador e para o derrotar se vaticina que só uma ação de envergadura, com meios humanos e materiais de vulto, pode ter sucesso mesmo que à custa de vidas humanas. Tal como na Natureza, o número é importante para a sobrevivência da espécie.
Muitas vezes quedo-me em silêncio interrogando-me sobre a estupidez da guerra. Haverá quem mais a odeie que o soldado? Duvido que não. E contemplo a Europa de hoje num exercício imaginário do que ela seria se não tivesse havido o Dia D.
Setenta anos se passaram desde o Dia do Sacrifício e muita coisa aconteceu desde então. Operaram-se transformações profundas a nível político e social, muitas das quais nem nos damos conta de tão banais que se tornaram, como o direito à livre expressão do pensamento, do direito de manifestação e de protesto e do direito de audiência prévia entre outros. Não é perfeita esta Europa nem ajustado aos dias de hoje o sistema financeiro mundial que nos controla e a muitos de nós oprime. Mas respira Liberdade a velha senhora, porque os direitos fundamentais estão consagrados e são salvaguardados por mecanismos de controle de quem detém poderes de Estado sobre os demais. O calvário por que passou a nossa compatriota Salomé Santos numa prisão da República Dominicana durante doze longos dias até provar a sua inocência perante um juiz, seria impensável num país membro da União Europeia.
Porém, fazendo a leitura dos resultados das últimas eleições europeias, quando se vislumbram no horizonte sinais de nuvens negras de extremismos nacionalistas interrogo-me sobre se é mesmo esse o caminho e o futuro que queremos para a Europa: a ditadura e a consequente compressão, sem nos darmos conta, dos direitos cívicos tão arduamente conseguidos ao longo de décadas. “E quando me vieram prender a mim, olhei à volta e vi que estava só”.
Não pode em ninguém ser delegado poder absoluto. Continuemos, tal como está, a distribuir poderes: haja quem governe, haja quem legisle, haja quem julgue.
A democracia europeia deve ser melhorada por cada um de nós através do exercício diário da cidadania e escolhendo melhores políticos, nunca combatida revelando que desconhecemos, ou pior ainda, que ignoramos os holocaustos da História.
Pensar é preciso, pensar com as nossas próprias cabeças é crucial. Os que tombaram no campo da batalha merecem esse esforço.
Honremo-los, pois!




























