A localização de Abrantes no centro de Portugal, a meio caminho entre Lisboa e Espanha e entre o Algarve e a Galiza, deveria torná-la só por si numa das cidades mais importantes do nosso país. Não é, por acaso, que reza o ditado que é “no meio que está a virtude”. E num país tão pequeno como o nosso, Abrantes, pela sua localização geográfica, deveria aspirar a ser, pelo menos, a capital da Região Centro.
Infelizmente, Abrantes não só não tem sabido tirar partido da sua localização estratégica como está a perder importância regional de forma acelerada.
Se olharmos desapaixonadamente para o mapa de Portugal, não podemos deixar de concluir que não faz qualquer sentido deixar um distrito extremamente pobre, desertificado e pequeno, como é o caso do distrito de Portalegre, encravado junto à fronteira espanhola. Os distritos de Portalegre e Santarém deveriam ser obviamente um único distrito, até porque não têm dimensão, nem população para mais. E Abrantes deveria ter capacidade e energia para unir e fortalecer os laços entre ambos, puxando Santarém para Espanha e Portalegre para Lisboa, dando coesão ao novo distrito, em benefício de todos.
Sendo certo que, mantendo-se os dois distritos separados, Abrantes tinha tudo a ganhar em pertencer ao distrito de Portalegre e vai perder tudo por pertencer ao distrito de Santarém. E não é necessário ser muito inteligente para chegar a esta conclusão óbvia. Com efeito, se Abrantes pertencesse ao distrito de Portalegre, seria a cidade mais importante deste distrito, não só por ser a mais populosa mas sobretudo por se localizar do lado ocidental do distrito, ou seja, do lado certo. O Hospital e o Tribunal de Abrantes ganhariam uma relevância natural, no contexto distrital. Quando se está doente, por exemplo, toda a gente quer aproximar-se de Lisboa.
Pelo contrário, no distrito de Santarém, Abrantes fica na ponta esquecida. A não ser as pessoas de Abrantes, quem é que, no distrito de Santarém, troca o Hospital de Santarém, Torres Novas ou Tomar pelo de Abrantes? Quem é que quer andar para trás? E quem diz o Hospital diz o resto. Veja-se o que sucedeu ao tribunal de Círculo de Abrantes. Desapareceu do mapa, sendo hoje Abrantes uma cidade mais irrelevante do que Ponte de Sor, na nova organização judiciária. E quantas pessoas de Torres Novas, Tomar ou Santarém vêm fazer compras a Abrantes? É mais fácil ver pessoas de Abrantes em Santarém, Tomar, Torres Novas ou Leiria do que o contrário. Quem faz e sempre fez vida com Abrantes são as localidades da outra margem do Tejo: Gavião, Ponte de Sor e Bemposta.
Abrantes, se pertencesse ao distrito de Portalegre, tinha não só todas as condições para crescer e transformar-se na cidade mais importante do distrito como daria sustentabilidade e viabilidade a um distrito que, neste momento, é já uma pura ficção. Além disso, Abrantes é uma cidade tipicamente do Alto Alentejo, ou seja, uma zona de transição entre o Alentejo (a sul), as Beiras (a norte) e o Ribatejo (a oeste). Aliás, Abrantes reúne estas três características: Bemposta (Alentejo), Tramagal (Ribatejo) e Mouriscas (Beiras).
Por que razão, então, o poder político abrantino não se bate para que Abrantes passe a pertencer ao distrito de Portalegre e à sub-região do Alto Alentejo? A resposta parece-me tão óbvia que nem necessitaria de ser respondida. Por que será, estimado leitor? Porque, para os políticos de Abrantes, o caminho mais perto para chegar à capital é Tomar, Santarém e Lisboa. Ou seja, os interesses do município de Abrantes são, neste caso, conflituantes com a carreira dos políticos locais. Sem esquecer que Abrantes é uma excelente cidade para os políticos abrantinos convertidos a Lisboa: não custa nada dar aqui um saltinho para vir fazer campanha eleitoral, dar uma palestra ou jantar com militantes e simpatizantes. Fica apenas a uma hora de caminho e até dá para ir e vir no mesmo dia.
II
A forma como o Governo se prepara para fazer a distribuição dos fundos comunitários é ultra-vergonhosa. Mais uma vez e seguindo à risca o roteiro do Bloco Central, o grosso da fatia vai ser engolida pela região mais rica de Portugal e por uma das mais ricas da União Europeia. Ou seja, mais uma vez, a região mais rica de Portugal vai abotoar-se com os fundos destinados às regiões mais pobres.
Quando é a pedir, Portugal invoca o facto de ser um país pobre e periférico mas, depois, quando se apanha com o dinheiro no bolso, manda às malvas as regiões mais pobres e periféricas de Portugal.
Infelizmente a liderança socialista de António Costa também não deixa antever uma alteração de estratégia relativamente a esta matéria. Bem pelo contrário ou não fosse António Costa presidente da câmara de Portugal. Aliás, o simples facto de acumular o cargo de presidente da câmara de Lisboa com o de secretário geral do PS é bem demonstrativo desta maneira tão politicamente portuguesa de confundir Portugal com Lisboa. Ou acha o leitor que seria possível acumular os cargos se, em vez de presidente da câmara de Lisboa, fosse presidente da câmara de Bragança, Viseu, Portalegre ou Beja?
III
Acaba de ser publicado um estudo da UEFA sobre as principais ligas europeias que conclui o seguinte relativamente a Portugal: que a nossa Liga consegue ter menos gente nos estádios do que as competições secundárias da Alemanha e da Inglaterra e que o Benfica é o clube europeu que concentra a maior percentagem de adeptos no seu país, mais precisamente 47%.
O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Tem tudo a ver. É precisamente pela razão oposta que a Inglaterra é o país com mais gente nos estádios. Em Inglaterra, por exemplo, o Manchester United reúne apenas 15% de preferências e, em Espanha, Real Madrid e Barcelona (juntos) reúnem apenas 33%.
Não é preciso ser muito inteligente para perceber que um campeonato de futebol a sério necessita, antes de mais, de clubes em número suficiente, sendo certo que um clube de futebol da I ou da II Liga pressupõe forçosamente uma massa fiel de adeptos (e não adeptos de segundo amor) capaz de, no mínimo, encher o estádio.
Ora, em Portugal existem apenas três clubes que monopolizam mais de 98% dos adeptos, número manifestamente insuficiente para se poder organizar um campeonato não só competitivo dentro do campo como também que dê garantias de isenção e imparcialidade fora dele. Não nos podemos esquecer que a paixão clubística tem o condão de transformar em seres absolutamente irracionais até pessoas com dois dedos de testa.
Com efeito, a organização de um campeonato onde só existem verdadeiramente três clubes e um deles tem 47% dos adeptos fica automaticamente inquinada à partida porque das duas uma: ou esse clube tem naturalmente a maioria em todos os poderes de decisão fora e dentro de campo (árbitros, presidentes de clubes, dirigentes associativos, delegados aos jogos, jornalistas desportivos, políticos, etc.) ou os outros dois clubes têm de trabalhar no subterrâneo para impedir que isso aconteça. Ora, qualquer das duas alternativas é perversa e corrompe necessariamente a verdade desportiva. Aliás, o que se passa em Portugal é muito semelhante ao que se passaria na Catalunha, se se tornar num Estado independente e quiser organizar o seu próprio campeonato de futebol, face ao peso desmesurado do Barcelona relativamente aos outros clubes catalães.
Em todo o caso, o futebol é sempre o espelho de um país. E um país macrocéfalo, pouco competitivo, corrupto e cheio de subterrâneos e de empresas de “faz de conta” como o nosso não podia aspirar a ter um futebol diferente.
Se Benfica, Sporting e Porto querem participar, efectivamente, num campeonato de futebol profissional a sério, deviam pressionar a Federação Portuguesa de Futebol para propor à sua congénere espanhola que estes três clubes integrassem a Liga espanhola, passando esta a chamar-se Liga Ibérica. Aliás, tendo em conta a mentalidade do adepto português que, por preguiça, prefere sempre escolher o lado dos vencedores, em vez de lutar pela vitória, não há outra forma de termos campeonatos competitivos e estádios cheios.
Acresce que, se fosse esse o caminho escolhido, dado o peso cultural do futebol, estaríamos perante o mais decisivo contributo para uma verdadeira reforma estrutural das mentalidades, essencial para sobrevivermos num mundo altamente competitivo. Sobretudo quando somos um povo que tem horror a correr riscos e, consequentemente, cola-se, por natureza, às maiorias, sendo um profundo entusiasta das vitórias antecipadamente garantidas.


























