Seg, 15 Julho 2024

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Uma página em branco

SAMUEL PIMENTA, Escritor

Antes de escrever, fico a contemplar as folhas brancas do meu caderno. Gosto de maravilhar-me com a liberdade que as define, de sentir o respirar leve e determinado que têm em viver. Costumo fitar as páginas despidas de palavras, demoradamente, mergulhando na mudez em que se encerram, na ausência e no nada que as abraçam.

Há nas páginas em branco um êxtase etéreo que nos transporta para realidades inalcançáveis aos olhos cegos dos que simplesmente vêem. As páginas em branco contêm uma sabedoria profunda de nada saberem, são feitas de um silêncio ensurdecedor que nos detém e enfeitiça. Páginas brancas, limpas de culpa e cândidas na pureza, são verdadeiras janelas que se abrem sobre uma esperança invisível, sobre um vazio primordial e sagrado. A brancura de que são feitas veste-as de brilho e de encantamento, de branda inocência e de acreditar. Nas páginas em branco, há um desejo de conseguir e de vitória, uma ânsia de chegar a algum lugar.São barcos que cruzam os oceanos imaginários criados pelo humano, combatendo o medo da dúvida com a audácia dos deuses e titãs.

Por isso, há nas páginas em branco uma promessa por alcançar e um eterno questionamento sobre o real; uma dúvida que apela à consciência dos que bovinamente confiam. As páginas em branco são, na sua mais pura essência, um sonho por cumprir.

Para que se cumpram, as páginas em branco precisam de quem as escreva. Como o fado é feito por quem o vive, também as páginas em branco ganham o sentido de quem as escreve. Podem tornar-se belas e sublimes, horrorosas e dantescas. As páginas em branco são o leme dos escritores e dos poetas, o silêncio ancestral que se exprime nas horas de loucura sã e que à acção impele.

É através do vazio, do nada que contêm, que nascem novas emoções, novas vidas, novos mundos. E assim se cumpre o sonho, e assim morre o branco das páginas brancas. E um novo sentido nasce, e uma nova esperança se manifesta.

Curioso que as páginas brancas me levem a pensar sobre o meu país… Portugal é uma gigantesca página em branco. É incerto e inconclusivo, construído sobre um tudo feito de nada. Vive ainda na promessa de um amanhã que não seja calado e menor; Portugal está ainda por escrever! Portugal é, ainda, uma mera página em branco. E como todas as páginas em branco, Portugal é, também, um sublime sonho por cumprir.

 

Samuel Pimenta,

Escritor

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