Chamo-me Samuel, tenho vinte e quatro anos e sou português, nascido numa pequena vila do Ribatejo nas proximidades do altivo planalto de Santarém. Alcanhões é o seu nome. Terra de mouros e cristãos, de paços reais e fidalgos, de termas, vinho e azeite, de cavalos e touros, de lendas antigas e aparições marianas.
Vivo numa casa que o meu pai construiu com as suas próprias mãos. Nem todas as pessoas podem dizer que as suas casas foram construídas pelas mãos dos pais ou dos avós. Eu posso, o meu pai é construtor civil, aprendeu com o pai dele, meu avô. Pedreiro, como se dizia há uns anos atrás e como se continua a dizer cá em casa. Agora usam-se muitos nomes bonitos para categorizar profissões que não são tão limpas, que cheiram ao pó da terra ou do cimento, a pão cozido e aos fritos da cozinha, como se esses nomes tornassem essas profissões mais limpas pelas bocas que os proferem e que têm medo de se sujar, mais recomendáveis, mais bonitas. Como se esses nomes lhes retirassem o peso, as dores nas pernas, nas costas, os calos nas mãos, a ginástica financeira a que obrigam para sobreviver, as frustrações. Como se esses nomes as neutralizassem, por fim. Provenho de famílias de moleiros e camponeses, costureiras, cozinheiras, operários fabris e pedreiros. É daqui que provém a minha história pessoal, mas também a história do meu país.
Cresci junto das oliveiras, brinquei muito nos campos do bairro ribatejano e aprendi a tocar o longe olhando a lezíria e o Tejo que a rompe e lhe dá de beber. Estudei na minha vila até ao quarto ano e, na cidade de Santarém, do quinto ao décimo segundo. Foi no Ribatejo que comecei a escrever as primeiras palavras, onde fui aplaudido pela primeira vez e onde apresentei o meu primeiro livro publicado. Fui alvo de bullying desde que tenho consciência de mim, mais uma palavra bonita, estrangeira para que poucos a percebam, que não traduz o horror das agressões físicas e psicológicas que enfrentei na escola, acusado de uma sexualidade que nem eu conhecia ainda. Como sempre me empenhei para ser um bom aluno, talvez para mostrar ao mundo que eu era bom, que eu era válido, que eu era gente, entrei no curso que eu queria, na faculdade que eu queria e na cidade que eu queria. Mudei-me para Lisboa com dezoito anos, mas nunca definitivamente, nunca a tempo inteiro, parte de mim ainda caminha entre as vinhas e bebe da água das fontes da minha vila. Completei a licenciatura e entretanto já tive cinco empregos. Hoje estou desempregado. Já ponderei abandonar o país e tentar uma vida de emigrante, como nos aconselham os nossos políticos que têm zelado tão bem por nós. Desisti da ideia. Não tenho estrutura psicológica suficiente para viver longe de todas as relações de afecto que fui construindo. Para se viver longe, para partir, é preciso desapego, essa vontade férrea, essa coragem. É preciso caminhar sem olhar para trás. E eu não sou capaz, não sou capaz. E espero nunca precisar de ser capaz.
Posso dizer que a vida até me tem corrido bem, embora com os desafios inerentes aos caminhos que eu fui escolhendo seguir. Sinto que me sei superar e, por isso, evoluo. Viver tem esse misto de acidez e doçura, em que nos ferimos profundamente algumas vezes, mas encontramos sempre os bálsamos que nos saram. E caminhamos em frente, fluindo como as águas, mesmo que umas vezes nos doam as cicatrizes que acabam por marcar o nosso corpo. As águas nunca bloqueiam a sua marcha ao encontro de outras águas. E é para lá que vamos, a caminho de algo, das nossas outras águas, de um devir.
Portugal, quem és tu? Portugal sou eu, é a minha história pessoal, com os seus sucessos e desafios, multiplicada por cada uma das pessoas que pisam este território. Portugal és tu desse lado, com a tua história pessoal, as tuas aspirações e a vontade de as concretizares. Portugal somos nós e cada um dos nossos fracassos, mas cada uma das nossas vitórias. É a capacidade que cada um tem de se superar e de evoluir. E quando entendermos isto, quando tomarmos consciência de que vivemos num país feito de pessoas, e não de instituições, feito de múltiplas histórias identitárias, e não de números, padrões e burocracias que nos cristalizam, estamos preparados para construir um Portugal pelas nossas próprias mãos e seguir o curso das águas que nos levarão a algum lugar. Mais evoluído, espero. Mais de acordo com a nossa condição individual e humanitária.
Lido no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa,
por ocasião do encontro “Portugal, quem és tu?”,
a 17 de Janeiro de 2015




























