Qui, 18 Abril 2024

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Insónia

SAMUEL PIMENTA, Escritor


Deitou-se.

O quarto fechou-se sobre a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira e o homem aninhou-se nos lençóis de flanela que vestiam a cama. Dormia sozinho. Por vezes, tinha noites menos solitárias. O colchão costumava estranhar o corpo estranho junto ao corpo familiar, embora não se questionasse muito, não é da função de um colchão levantar questões; a estranheza raramente perdurava, o homem não era de dormir com companhia por muito tempo. Estava acostumado a dormir sozinho.

Escuro. Paredes feitas de noite sem luar, quarto sem voz. O homem virou-se na cama, comprimiu a barriga contra o colchão. Dorme, pensou. Fechou os olhos e suspirou. A cama suspirou também. Pensou dorme novamente. Abriu os olhos, fechou-os de seguida. Apertou os lençóis contra o pescoço, sentia frio. Virou-se. Ficou de costas viradas para o colchão. Abriu os olhos. Fechou-os. Dorme. Abriu novamente e suspirou.

Estava sem sono.

O homem fitava o tecto como se o conseguisse ver no quarto sem luz. O escuro olhava-o e ele olhava o escuro. Encaravam-se sem se darem conta. Antes assim, talvez conseguisse adormecer. Contou carneiros, imaginou-os a saltar do lado esquerdo para o lado direito da cama. Um. Dois. Três. Vinte. Vinte e um. Trinta e sete. Perdeu-se. Virou-se novamente, barriga comprimida contra o colchão. Pensou dorme imperativamente. Apertou os lençóis contra o corpo, continuava a ter frio. Fechou os olhos. Suspirou. E as ideias de que fugia durante o dia aninharam-se com ele na cama. Sussurrando.

Vida medíocre. O emprego tornou-se o centro do teu mundo. Levas a vida num vaivém interminável e insano. Casa e trabalho. Trabalho e casa. És um nada, sombra que vive à mercê de um rumo sem norte. Um fraco. Podias ser tanto, fazer tanto… Tens poucos e maus amigos, nenhum deles gosta genuinamente de ti. Cretinos! E tu és como eles, um cretino também. Não terias ninguém se não os tivesses, insistes em falar-lhes por pena de ti. Medíocre. Quarenta anos e estás completamente só. Só. Nunca amaste verdadeiramente. Nem te sentiste amado. Pena de ti. Estás vazio por dentro e por fora. Tens pele, carne, osso, sangue. E além disso, que tens tu? Que és tu? Querias ser mais do que és, mais do que tens sido. Nunca foste quem sempre quiseste ser, nunca tiveste a coragem de fazer o que sempre desejaste. Gostavas de ver o mundo… Ver o mundo! Como será o mundo, perguntas. Sê audaz e persegue esse anseio. Vê o mundo. Faz o que queres, o que gostas de fazer. Quero ir mais vezes junto ao mar, pensas, deixar que as ondas me abracem os pés. Gostas tanto quando as ondas te abraçam os pés. Imaginas como seria a tua vida com pessoas felizes, pessoas que despertassem o melhor de ti. Querias… Querias tanta coisa, tanta coisa…. Será tarde? Será tarde para perseguir esta ânsia, esta fome de ser diferente disto em que me tornei? Não, eu posso fazer tudo. O querer é a distância que me separa do que consigo e do que não consigo. Tu podes fazer tudo. Mas quero mesmo mudar a minha vida? Sou capaz? És capaz?

O homem virou-se na cama, costas sobre o colchão. Abriu os olhos e fitou o escuro. Crescera-lhe desassossego no peito. A interrogação sou capaz ergueu-se diante do escuro. Suspirou. Tenho medo.

Fechou os olhos e virou-se, barriga comprimida contra o colchão. Não queria pensar mais. Decido noutro dia. Desassossego no peito.

Adormeceu.

Samuel Pimenta

Escritor

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