Lembro-me de ter lido esta palavra pela primeira vez na escola, num manual da disciplina de História. Gineceu. Estudávamos a organização das casas na pólis segundo o modelo ateniense. O gineceu era a divisão destinada às mulheres. Não por opção, como hoje optamos por ficar na sala de estar ou no quarto. As mulheres eram obrigadas a isso. Passavam da propriedade do pai para a propriedade do marido, estavam condicionadas a viver sob a alçada dos elementos masculinos da casa. Não tinham escolha. A participação nas festividades religiosas era muito condicionada, o ginásio era-lhes restrito. Não eram cidadãs, sequer! Tal como os escravos e os metecos, estavam excluídas das decisões referentes à governação da cidade. Afinal, as mulheres só conquistaram o direito ao voto em 1893, na Nova Zelândia. A partir daí, o movimento pelo sufrágio feminino tem-se vindo a expandir por todo o mundo. Hoje é um direito fundamental. Em teoria, pelo menos.
Os manuais escolares ensinaram-me que o gineceu é um espaço condensado na História, distante. Cedo percebi que os manuais me mentiram. O gineceu nunca deixou de existir, nem nas casas nem nas mentalidades. Basta percebermos como, em plena era da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ainda subsiste a parafernália de ideias a respeito do que uma mulher pode e não pode fazer, desde o valor do salário mensal a que tem direito, à forma como vive a sua sexualidade, às opiniões que emite ou, inclusive, às roupas que deve ou não deve vestir. As mulheres ainda estão circunscritas aos gineceus mentais que dominam as sociedades. E como elas, muitos de nós somos reféns desses espaços que procuram fechar-nos sob a imposição de uma definição, de um rótulo. Gineceus de outras estirpes, mas com a mesma índole segregadora. Os gineceus que ainda existem podem assumir outros nomes e são mais do que a mera divisão de uma casa, representam algo muito mais silencioso e letal que se esconde e se camufla para que demoremos a perceber que está vivo e latente, como um vírus: o preconceito.
O gineceu tem a mesma génese que as sanzalas, os campos de concentração, as leis homofóbicas ou a xenofobia, a ideia de que existem seres superiores e seres inferiores. Representa todas as ideias com que encarceramos o outro que nos é diferente. Homem, lésbica, gordo, macho, mulher, gay, preto, fêmea, magra, judia, monhé. Preconceito. Somos confrontados com preconceitos todos os dias. Mas até quando vamos viver assim? Até quando vamos assistir à morte de mulheres por violência doméstica a preencher os noticiários dos jornais, ao bullying nas escolas ignorado pelos conselhos directivos ou aos comentários racistas dos nossos colegas de trabalho? Até quando vamos fingir que assistimos a tudo isto de mãos atadas? Porque não estamos de mãos atadas, elas estão aqui, libertas, à espera que façamos algo de bom com elas. Algo que nos liberte. Algo que liberte quem já não tem força para pedir ajuda.
Alcanhões, 27 de Fevereiro de 2015 – 18h49m




























