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Em nome do futuro

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Samuel Pimenta

Poderia dizer que estou aqui como jovem, um jovem a dar voz a tantos jovens como eu cuja possibilidade de futuro está num emprego de salário precário ou numa viagem para o estrangeiro em busca de um lugar que faça justiça à formação profissional em que investimos. Poderia dizer que vim aqui para afirmar que sou de uma geração que é destemida, que viaja de mochila às costas e por isso é mais livre e dinâmica, mas não sou de compactuar com discursos que apregoam uma imagem que é uma meia verdade. Se somos tudo isso, mais livres, mais dinâmicos, mais destemidos, somo-lo porque não temos outra alternativa além de enfrentar o medo e os desafios que nos são colocados quando estamos diante da imensidão do mundo. Vemo-nos na inevitabilidade de trabalhar num país estrangeiro porque no nosso país não são criadas condições para nos integrar. Se por acaso ficamos, são-nos propostos salários miseráveis, isto quando são propostos salários, e condições laborais dúbias que nos obrigam a uma exaustiva ginástica para gerirmos os sonhos com a obrigatoriedade das contas que temos de pagar e para as quais o salário mal chega, para gerirmos o facto de ainda vivermos nas casas dos nossos pais com o desejo de nos emanciparmos e não termos alternativa para o fazer, para gerirmos o que seria uma progressão natural da carreira com a inevitabilidade de ficarmos estagnados num emprego sem perspectivas de evolução. Emigrem, dizem-nos alguns com olhos doces, estendendo-nos os braços e seguros de que seria bom que os ouvíssemos. Confesso que tenho vontade de responder sempre com a pergunta: porque não emigram vocês? Não se emigra de ânimo leve. Estou consciente da importância de experiências profissionais no estrangeiro, dos valores que nos acrescentam, mas jamais quando não nos é dada outra escolha, jamais quando somos empurrados para fora do país onde nascemos e onde, muito possivelmente, gostaríamos de construir uma vida, onde gostaríamos de ficar. Porque temos direito a ficar. Temos direito a querer ficar.

Poderia dizer que estou aqui como cidadão, um cidadão que deseja viver num país em que o discurso político não se reduza à bicefalia partidária e em que os partidos não justifiquem decisões que lesam o interesse nacional escondendo-se atrás de votos que nem representam a totalidade de eleitores, pois é a abstenção que vence, nos últimos anos é sempre a abstenção que vence as eleições. Desejo um país com uma verdadeira tradição democrática e para que isso aconteça, o trabalho dos partidos e dos movimentos sociais deve e tem de ser maior, no sentido de envolver os cidadãos na manutenção da democracia, essa condição vital para a liberdade dos povos. Saiam das sedes dos partidos. Saiam dos grandes centros urbanos. Saiam. E encontrem-se com as pessoas, façam-nas pensar, questionar, participar. Nunca foi tão urgente envolver os cidadãos na construção de um país. Os jovens eleitores são desinteressados e os mais velhos estão desiludidos. A corrupção transversal a todos os sectores e a insolência da impunidade com que os jornais nos confrontam diariamente têm manchado a esperança de trazer mais pessoas para a política, não a política do carreirismo, do tráfico de influências ou do desprezo pelos valores das revoluções liberais, mas a política real, a política que os gregos nos ensinaram na Antiguidade com a Democracia e que os romanos nos ensinaram em Roma no período da República, a política cidadã, da participação e do compromisso do indivíduo pelo bem comum. Já existem movimentos que estão a fazer um trabalho intensivo nesta questão, mas é urgente que todos os movimentos políticos, que todos os partidos, tenham isto como foco, em vez de se perderem em discursos autistas que só contribuem para a política da retórica e do vazio. Afinal, para que serve um partido?

Poderia dizer, também, que estou aqui como escritor, como artista, alguém que deseja viver num país em que a cultura e as artes possam ser o centro a partir do qual se desenvolve uma civilização. Porque, acreditem, é a partir da cultura e das artes que uma civilização emerge. Não é através da economia ou da política, isso é posterior. Inerente à cultura, sim, mas posterior. São os hábitos culturais que nos definem e nos moldam e é a partir das artes, e do espaço de liberdade que lhes é essencial, que nos é permitido ver para lá das fronteiras, com mais lucidez, mais consciência. É através da cultura e das artes que se sonha a utopia e que se nutre a chama que mantém viva a luz dos faróis que nos norteiam o caminho. A cultura é a nossa estrela polar, a bússola que nos diz para onde vamos. Por alguma razão é sempre a primeira a sofrer cortes no investimento e por alguma razão as censuras dos regimes ditatoriais dedicam tanta atenção à criação de uma cultura única e à perseguição de tudo e todos os que assumem uma voz diferente ou discordante do que é imposto. A cultura e a arte instigam o pensamento, questionam, denunciam, reinventam, educam, criam, trazem à vida. A cultura e a arte libertam. Desejo que o meu país seja um lugar em que as utopias ganhem forma em vez de serem votadas ao mundo das fantasias impossíveis, que seja um espaço em que o pensamento livre seja olhado como uma prioridade para a formação da estrutura de uma sociedade e não como um transtorno ao exercício do poder, que seja a confirmação de que o sonho é só o início de um percurso bem real, um percurso em que homens e mulheres possam viver no seu pleno direito à humanidade.

Porque, em última análise, hoje estou aqui como humano. Estou aqui por tudo o que já referi, mas acima de tudo como humano. Sou apenas um entre os milhares de humanos que existem no planeta, mas o que tenho a dizer digo-o por mim e por todos os que partilham esta Terra comigo. Estou aqui para exigir aquilo que deveria ser inerente à condição fundamental do ser humano que sou, a possibilidade de um futuro. Não pretendo culpar ninguém, acredito que todos temos responsabilidade no rumo que este país – e este mundo – tem vindo a levar, seja por distracção, comodismo, descrença, indiferença ou permissividade, mas já vivemos no tempo em que nos é exigido que participemos na construção do que somos e do que queremos ser, que abandonemos os egos que nos têm vindo a destruir, que trabalhemos juntos e que possamos co-criar uma civilização assente num bem maior que, na verdade, é o primeiro de todos os bens, pois sem ele nenhuma civilização prospera: o Amor. É esse Amor universal, essa concórdia entre as diferenças, essa união, que nos permite construir um futuro em comum. E esse tempo é agora. As formas de o fazer são inúmeras, mas é urgente que o façamos, em nome do meu, do vosso, do nosso futuro, para que as gerações que hão-de vir não nos acusem de não termos feito tudo o que estava ao nosso alcance, para que as gerações que hão-de vir possam vir realmente. Pois só com elas haverá voo, haverá futuro, haverá esperança.

Lido na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa,

por ocasião do “Congresso da Cidadania – Ruptura e Utopia

para a Próxima Revolução Democrática”,

a 13 de Março de 2015

 

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