A cacofonia que nos rodeia tornou-se uma epidemia incontrolável. Potenciada pelas redes sociais e pela síndrome de comentadorismo, levou a que a reflexão deixasse de ser um exercício introspectivo em busca da verdade das coisas. O homem contemporâneo quer falar sobre tudo e opinar sobre tudo. Os critérios de nomeação das coisas perderam sentido. Não que defenda que apenas um séquito de iluminados deva opinar sobre a realidade. Isso é o que ainda vigora: uns poucos opinam com o aval de uns muitos e esses muitos, depois, opinam face ao que esses poucos opinaram. O sentido real e sagrado da reflexão perdeu sentido. Por isso me recuso, tantas vezes, a escrever sobre as notícias da ordem da actualidade por estarem vazias de sentido, de tantos sentidos que já lhes deram.
O pensamento é um exercício de diálogo entre o eu e os vários reais que percepciona, é um exercício de entendimento e de descoberta desses reais. Escrevê-lo é o passo seguinte, é torná-lo nome e dizível. Quando me deparo com a cacofonia da contemporaneidade, que de tão polissémica vira amorfa e monossilábica, não deixo de me surpreender pela genuína vontade de participação na vida cívica que muitos palradores demonstram. No entanto, há um vazio de foco e uma vassalagem aos pré-conceitos que a cultura impõe. Para que o pensamento possa tornar-se num texto, num comentário, há que ter método, há que saber pensar. E grande parte das pessoas que se apresentam como comentadoras, de televisão, de sofá ou de redes sociais, não sabe pensar. Sabe, sim, seguir. Seguir cegamente. O seu partido, o seu patrão, o seu comentador adorado, o seu amigo. Precisamos de gente que desconstrua os reais, que questione o que é inquestionável e que diga o indizível. Só assim se chega à luz, só assim se chega ao conhecimento.
O pensamento tem de ser livre. O texto tem de ser livre. A vida tem de ser livre. E o foco do que vive a contemporaneidade prende-se com essa mesma questão, a da liberdade. O pensamento, o texto e a vida não são livres. Alguns são, muito poucos. Mas enquanto a grande maioria dos homens e das mulheres se privar de descobrir e de entender os reais através de uma reflexão genuína, não poderei afirmar que o mundo deu um salto evolucional. Até isso acontecer e imperar esta cacofonia de grunhos e palpites, remeto-me ao silêncio das minhas ideias e à tentativa que é este texto em dizer seja o que for.
Samuel Pimenta
Escritor




























