O sofrimento das crianças e idosos é talvez a pior consequência desta crise económica e de valores que estamos a viver. Num passado recente, multiplicam-se os casos dos pais que tiveram a coragem de matar os próprios filhos antes de colocarem termo à vida.
Todos os dias conhecemos idosos vítimas de maus tratos, violência e abandono. E a situação não é mais grave porque as instituições de solidariedade e algumas comunidades desempenham um papel louvável, substituindo e apoiando as famílias.
Recuso fazer julgamentos porque há situações que não têm explicação racional. Até os animais protegem as suas crias, porque razão é que um humano priva os filhos da vida?
Como é que alguém que trabalhou uma vida inteira para criar os seus filhos e ajudar a desenvolver o país pode ser desprezado e mal tratado.
Não há nada mais cruel numa sociedade que se diz civilizada e cumpridora dos bons costumes, que os maus tratos infringidos a uma criança ou idoso e a negligência dos cuidadores. As crianças não pediram a ninguém para nascer e a partir do momento que nascem têm direitos que devem ser integralmente respeitados. Os idosos por tudo o que nos legaram merecem envelhecer e morrer com dignidade e não podem ser abandonados à sua sorte, sem conforto, sem comida e sem carinho.
A maioria das tragédias a que o país assistiu nos últimos meses-as mães que mataram os filhos em Alenquer, no Jamor e em Bragança, o pai que se atirou ao poço com um filho de dois anos em Viana do Castelo-eram tragédias anunciadas. Os familiares, os vizinhos e os amigos destas famílias sabiam que havia graves problemas. E até as Comissões de Proteção de Crianças e Jovens em Risco tinham sinalizado a maioria destas vítimas. E o que fizeram os cidadãos e técnicos que conheciam as situações?
Quando um idoso aparece morto em casa, há sempre alguém que estranhou as suas ausências, mas não as sinalizou junto das autoridades ou da família. “Nós já prevíamos que isto acontecesse”, dizem com a maior naturalidade.
A omissão de auxílio e a negligência de quem sabe e não denuncia, também deve ser criminalmente punida. Nós, enquanto cidadãos, não temos o dever de zelar apenas pelos nossos filhos e pelos nossos pais. Também temos o dever, quanto mais não seja ético e moral, de tudo fazer para evitar o sofrimento das crianças e de todos os indivíduos mais desprotegidos, para, em alguns casos, evitar a sua morte.
Não podemos ficar na nossa zona de conforto e limitar-nos a julgar, com a censura social os agressores que cometem estes atos loucos. Todos temos o dever de evitar que estas situações se tornem normais. E amanhã é tarde demais, em cada minuto há dezenas de crianças e idosos que vêm os seus direitos serem violados.
Enquanto escrevia esta crónica, 12 crianças foram vítimas de mais tratos em Portugal. E a culpa não é só da Troika e da conjuntura em que vivemos. A culpa é de todos e não pode morrer solteira.
Um país que não cuida dos seus meninos e dos seus velhos, não tem memória, compromete o presente e não pode ter futuro!
Nelson Silva Lopes
Eleito na Assembleia Municipal de Benavente




























