I – Gatunagem da Geração
“Mas há aí assim alguém
que não queira ser rico, bonito
e trajar bem?”
– Declamava o meu bisavô paterno.
Admiro esta frase do meu antepassado recente, pela sua intemporalidade e crescente significado nos dias de hoje (e de amanhã), muito por culpa da banalidade em que se tornou ‘comunicar’. O facebook e o smartphone enterraram de uma vez por todas a tradição de estrear roupa nova no Natal, na Páscoa, na procissão e na festa da freguesia. Agora, se queres selfies variadas e com muitos gostos, tens de aumentar consideravelmente o teu guarda-roupa. Mas pelo contrário, quem se fotografa em pilica[1] não tem esse problema e tem muito mais audiência.
Esta introdução antecede a história real de Joana (nome fictício) que entrou num processo de alheamento social. Enclausurada num quarto, Joana perdeu o contacto com o mundo real, vivendo intensamente num mundo de avatares. Hoje, o mundo real é-lhe mais estranho do que interagir com os ‘amigos’ – osmesmos ‘amigos’ com quem se cruzava no supermercado mas que ignorava distraidamente por não estarem no devido contexto de virtualidade.
Joana sentia a adrenalina a correr-lhe nas veias quando abria o facebook e percorria o menu das mensagens e os pedidos de amizade. Os níveis de ansiedade disparavam sempre que tinha que abandonar o teclado para voltar ao mundo real e adquirir as coisas básicas à sua sobrevivência e bem-estar. Conseguiu abreviar esses interregnos da sua virtualidade, através das compras online. Encomendava a mercearia pela internet e até roupa que descobriu ser mais barata em algumas lojas online e que permitia-lhe continuar a publicar selfies com outfits diversificados. Afinal que interessava a camisola ter um defeito ou ser usada desde que não fosse visível na selfie?
Adiante…!
Contra todas as probabilidades, Joana encontrou um namorado fora das redes sociais. As primeiras férias foram recheadas de momentos fotogénicos de ambos que enchiam o mural de paixão ardente. Imensos comentários dos amigos enfeitavam as suas publicações. “Lindos”, “é só love”, “jeitosos”, etc…
Duas semanas depois acabaram as férias. Quando chegaram a casa de Joana e abriram a porta do apartamento, repararam que estava mais espaçoso. A limpeza tinha sido completa. Os gatunos tinham acompanhado as férias de ambos pelo facebook.
Mensagem para os políticos que andam em campanha e que publicam tudo o que fazem em tempo real: Publiquem igualmente fotografias de cães Rottweiler e Pitbull em pose altiva e sentinela a guardar as vossas casas. Ou sigam o exemplo das gémeas Mortágua do Bloco de Esquerda. Essas baralham a cabeça dos gatunos (e já agora, também dos eleitores). Até aposto que quando eram mais novinhas faziam os testes escolares uma da outra.
II – Sacos de Plástico
O ministro do Ambiente Jorge Moreira da Silva que me perdoe, mas no que depender de mim, vai ver frustradas as expetativas orçamentais relativas à fiscalidade verde.
A minha teimosia colide com o sentido prático de não andar com um saco reutilizável dentro do carro. Por isso mesmo, ontem, quando fui ao Continente comprar porcarias para mais uma patuscada em família, nomeadamente chouriças, morcelas de arroz, queijos, pão de milho e pistachos; e a menina da Caixa perguntou-me se eu queria saco, eu respondi-lhe: ‘Nem pensar! 10 Cêntimos por um saco da treta? Levo mesmo de braçado’ – E assim o fiz, … até à porta do supermercado.
A pilha que eu trazia em equilíbrio instável acabou por desabar e espalhou-se caoticamente pelo chão. O saco dos pistachos levou ainda um pontapé involuntário e o seu interior espalhou-se pelo átrio do supermercado, enquanto as freguesas que vinham a chegar esboçavam sorrisos divertidos e deprimentes ao depararem-se com aquele desastre. Parvalhonas!
Parvalhonas, porque até ainda há pouco tempo não se importavam de carregarem sacos de plástico com o símbolo do Continente e uma mala Louis Vuitton de padrão clássico a tiracolo (dupla foleirice). É por isso mesmo que não percebo como num país de promissores empreendedores, não tenham ainda criado uma fileira para os sacos das compras para um pujante mercado de mulheres modernas, sofisticadas e sexualmente insatisfeitas. Desculpem esta última parte, mas a vingança estava-me atravessada…
Post Scriptum: Nem quero imaginar se o PS, por fatalidade, vencer as eleições no próximo dia 4 de Outubro. Afinal, se são capazes, sem qualquer pejo entre camaradas, de diariamente esfaquearem-se nas costas uns dos outros, trair Portugal e os Portugueses é-lhes um pecado ainda menor do que roubarem laranjas a um vizinho forreta.
Tenho dito!
[1] Expressão alpiarcense para nú



























