Um dos meus amigos divorciou-se no ano passado. Neste momento vive sozinho, quase falido, com uma pensão de alimentos a cargo e uma hipoteca por pagar. Mas telefonou-me ontem para perguntar-me se podia ir com ele ao IKEA ajudá-lo a escolher a mobília para o novo apartamento de praia. É um otimista por natureza…
E como todos os verdadeiros amigos, temos as nossas divergências. Politicamente, têm-se acentuado nos últimos tempos. A última grande discussão aconteceu numa prova combinada de queijos da Murta com vinhos de Alpiarça. Já não me recordo qual o vinho vencedor, mas eu perdi claramente na capacidade de retórica.
Desta vez, o assunto era a TAP. E como qualquer discussão com um inveterado defensor das propagandeadas ‘políticas patrióticas e de esquerda’, perdi grande parte do meu tempo a tentar explicar com objetividade os meus argumentos. Não lhe interessou saber da situação de falência técnica da TAP (se a transportadora fosse liquidada e todo o seu património vendido, ainda faltariam meio milhão de euros de dívidas por pagar). Não lhe interessou saber dos fortes constrangimentos orgânicos e operacionais de funcionamento (vide o episódio da greve). Mas chocou-lhe que aparecessem investidores que assumindo todo o passivo (mais de mil milhões de euros), ainda injetassem liquidez na companhia na ordem dos 350 milhões de euros.
E aqui ele reagiu como todos os que aqui chegam, depois de ouvir falar de tantos milhões sem sequer pestanejar. Invocou o sentido patriótico de não vendermos uma ‘empresa genuinamente portuguesa, imagem de um povo e símbolo da nossa portugalidade’ (expressão dele)
A discussão acabou com um murro na mesa e na abertura de uma garrafa de Quinta do Alqueve-Touriga Nacional. Êxtase e apaziguamento!
Uma hora depois, um telefonema da ex-mulher e o momento de alegre confraternização estragado. A pensão de alimentos com dois meses de atraso e a uma ameaça de penhora à casa de férias. ‘Vaca!’ – Exclamou ele revoltado.
Apeteceu-me perguntar-lhe sobre as motivações e oportunidade da compra do apartamento de férias. Afinal, eu não o teria feito. Mas não lhe disse nada. Afinal, 15 dias depois do divórcio, tinha-o recebido à porta de minha casa, eufórico com a compra. ’Nem imaginas o bom investimento que fiz’ – Disse-me ele na altura. E eu, incapaz de contrariá-lo no primeiro momento genuíno de felicidade pós-separação, ainda lhe dei os parabéns…
Pode-se dizer que está muito melhor agora como divorciado do que quando casado. Deixou de ter aquele ar de fome, típico de quem é viciado em running, e já bebe cervejas ao jantar. E ao contrário de outros pais divorciados que vão ao McDonald’s de Santarém aos fins-de-semana à tarde à procura de jovens mães divorciadas para confraternizar, não tem passado muitas noites sozinho. E exibe esses troféus com aquela altivez e orgulho típico dos ribatejanos. Hoje telefonou-me para dizer que vai de férias para Amsterdão. ‘Vou acompanhado, conheci-a lá na praia e ela é perdida de boa. Vou pela Easyjet, porque é mais barato e assim não alimento os chulos da TAP’- disse-me ele.
Eu perguntei-lhe: ‘Então e o patriotismo, a TAP… imagem de um povo e símbolo da nossa portugalidade?’
Resposta dele: ‘Esta matulona quer que eu vá conhecer a família dela. Por isso mesmo, que se lixe o patriotismo e a portugalidade. Espera aí que já vais perceber. Vou enviar-te uma mensagem’
Recebi o MMS com uma fotografia do casalinho na praia… e caramba, percebi tudo! A cachopa devia ter aí 1,80m de altura, olhos claros, fisionomia nórdica, lindíssima…
Revi naquele preciso momento todas as nossas divergências políticas e posturas perante a vida. Custa-me admitir que o gajo possa estar certo, mas também é provável que eu esteja errado.
E mais uma vez, dei-lhe os parabéns.



























