Nos 40 Anos de Abril, a cidade que a Ele sempre ficará ligada, discute uma vez mais onde colocar a estátua do seu grande herói e símbolo maior: Salgueiro Maia.
Inicialmente colocada num local nobre e digno – o largo Cândido dos Reis – foi apeada, por requalificação do largo, e foi então guardada no estaleiro municipal com o objectivo de ser colocada em lugar dignificante.
Foi no estaleiro que assistiu à mudança de poder e à chegada de outro grande “libertador” chamado Moita Flores. Foi este “herói” das promessas vãs e do romantismo obscuro, que “descobriu” a estátua no estaleiro municipal, qual Pedro Alvares Cabral quando descobriu o Brasil.
Encenou um drama, mostrou-se ferido, clamou aos sete ventos o desrespeito pela memória do homem, numa perfeita encenação para os media. Curiosamente foi ele mesmo que arranjou maneira de promover o maior acto de cinismo a que Santarém assistiu. Sim, foi pelas mãos dele que Cavaco Silva haveria de homenagear Salgueiro Maia, o mesmo Cavaco Silva que lhe tinha recusado uma pensão de sobrevivência por altos valores prestados à pátria, atribuindo-a a dois agentes da PIDE.
Para tão cínico e triste acto foi colocada a estátua no “maior jardim de cravos do Mundo”, no lugar onde supostamente Salgueiro Maia teria chegado com a sua coluna militar depois de derrubar o regime. Não sabia ele que Salgueiro Maia nem sequer vinha nessa coluna.
O tal maior jardim de cravos do mundo, que nunca passou de uma floreira com pouco mais de 2 metros de comprimento ficava situado à entrada de Santarém, tendo como cenário casas em ruínas e automóveis estacionados a 2 metros da estátua.
Finalmente, agora, o PSD decidiu – e bem – acabar com a palhaçada que tudo isto representou. Propõe a mudança da estátua para… o Jardim da Liberdade. Essa obra faraónica de que a história se encarregará de falar.
Então pergunto eu… será o lugar indicado?
Crescemos habituados a ver as paradas militares no largo Infante Santo, a ver Salgueiro Maia a entrar e sair daquela que era a sua casa. De onde, numa madrugada de boa memória, decidiu acabar com 48 anos de ditadura.
Não seria esse o lugar lógico e honroso para colocar a sua estátua?
Vamos ver…
1º – É um lugar nobre, movimentado e dignificante.
2º – Homenageava-se não só o homem mas os homens que naquela madrugada dali saíram.
3º – Perpetuava-se a memória da Escola Prática de Cavalaria, mantendo a fachada da Porta de Armas e o painel da cavaria que serviria de fundo à estátua (bonita obra em mármore, hoje descontextualizada).
4º – Permitia que se reclamasse o regresso do museu da Cavalaria e do 25 de Abril para Santarém, de onde nunca deveria ter saído. Museu construído peça a peça por Salgueiro Maia, nos tempos em que a ingratidão e o medo lhe retiraram funções de comando, ocupando o tempo na recolha preservação e exposição das peças do museu. Seria bem mais fácil reclamar junto da Cavalaria o regresso do museu a um espaço que por si só a dignificaria.
5º – Em frente à antiga Escola Prática de Cavalaria a estátua permitia que o nosso imaginário reconstituísse aquela madrugada. Seria certamente um local de visita e de romaria de todos os que por lá passaram, de todos para quem o 25 de Abril é para comemorar e nunca esquecer.
6º – No jardim da Liberdade, o que significará a estátua para além de ser mais uma estátua? Ao lado de outras com ou sem valor estético com ou sem carga sentimental para Santarém? Que ligação tem aquele local a Salgueiro Maia ou ao 25 de Abril?
É tempo de comemorar os 40 anos de Abril… é tempo de pôr politiquices de lado, de quem propôs o quê, quem ganha e quem perde. Essa disputa mesquinha pode, uma vez mais, ser um entrave a que Santarém perca uma grande oportunidade de se afirmar como a “cidade do 25 de Abril”, de Santarém poder vir a ser sede do museu do 25 de Abril, quem sabe, de um centro interpretativo, visitado por escolas, por turistas… uma cidade que cada vez tem menos para oferecer aos turistas não pode desperdiçar oportunidades como esta…
É apenas a minha opinião, partilhada por muitos com quem tenho falado. Entendam-se e pensem Santarém.
José Freitas



























