Seg, 15 Julho 2024

PUB

RODAPE-CONTEUDOS

PUB

PUB

PUB

PUB

PUB

PUB

PUB

Siga o nosso canal de WhatsApp e fique a par das principais notícias.

Requiem para a escola dos cidadãos

ELVIRA TRISTÃO, Professora

Esta semana ficamos a saber que no próximo ano letivo as turmas aumentarão de dimensão, chegando novamente aos trinta alunos, um retrocesso de décadas no que respeita ao melhoramento de efetivas condições para os processos de ensino e de aprendizagem. Enquanto pais e professores, estupefactos, reagem negativamente à notícia, os responsáveis políticos pela Educação respondem que não é a quantidade que está em causa, mas sim a qualidade. Julgo que isto significa que o Ministro da Educação espera que os professores trabalhem mais e melhor com menos condições. Acontece que a qualidade, nos processos de ensino e aprendizagem, depende fundamentalmente da qualidade da relação que os professores estabelecem com os seus alunos. Acontece também que os processos de ensino e de aprendizagem são interdependentes e que a qualidade do primeiro só pode ser efetivo se houver aprendizagens de qualificadas.

Ora, sendo o vocábulo “qualidade” um substantivo abstrato, o seu significado está intrinsecamente associado ao que cada um de nós espera da educação escolar. E se atendermos ao que é mediatizado sabemos que a qualidade, para muitos, é expressa nos resultados dos exames, numa perspetiva de competição entre escolas que se esforçam por se situar nos lugares cimeiros dos rankings, onde nos habituámos a ver as escolas privadas de renome e as escolas secundárias dos grandes centros urbanos, maioritariamente frequentadas por alunos oriundos das classes socioeconómicas privilegiadas.

A par com o enfoque nos exames, na competição entre escolas pelos resultados académicos, assistimos a um discurso político que defende a exigência e condena o “facilitismo”. Nesse discurso os exames ganham relevo como instrumento de controlo da qualidade do ensino e retrocede-se numa atitude que opõe os conteúdos às competências. Mas convém aqui lembrar que a definição de “competências”, apresentada pela UE, é “o conjunto (se possível) integrado) de conhecimento, capacidades e atitudes”. Talvez por isso espero que se compreenda que a qualidade da escola extravasa o que é avaliado pelos exames e os conteúdos disciplinares. Aliás, a qualidade da escola e da educação é mais do que o resultado do conhecimento disciplinar, parcelar. As aprendizagens serão efetivamente significativas se forem integradas e transversais ao desenvolvimento integral das crianças e jovens.

Para o próximo ano letivo os professores terão menos tempo para os seus alunos, pois as turmas serão mais populosas. Autorizadas pelo Ministério, as escolas cairão na tentação de separar os bons dos maus alunos, o que será um sério revés para a defesa da equidade e da igualdade de oportunidades, acentuando a clivagem social existente à entrada no sistema, criando um sistema para pobres e outro para remediados, pois os ricos optarão pelo ensino privado. As alterações curriculares em curso tornarão o ensino mais restrito às disciplinas nucleares deixando de fora o ensino artístico e a componente curricular não disciplinar dedicada ao exercício da cidadania, do desenvolvimento de projetos, da criatividade e espírito crítico.

De hoje em diante espera-se do sistema educativo que “fabrique” mão-de-obra para um mercado de trabalho tendencialmente esclavagista para os mais vulneráveis e que prepare os mais “dotados” para a competição à entrada no ensino superior. Tudo se resumindo a um diploma e a uma média.

Fica de fora das recentes políticas educativas a Escola dos cidadãos. É pena!

 

Elvira Tristão

Professora

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Notícias Relacionadas

PUB

PUB

PUB

PUB

PUB

PUB

PUB

PUB

PUB

PUB