JOSÉ AUGUSTO DE JESUS, Advogado

Nos últimos contributos que tive oportunidade de partilhar, aqui na Rede Regional, muitas vezes falei da participação das pessoas na condução dos seus destinos. Conceitos de democracia, representação, cidadania, participação, entre outros, foram lugares que insisti em visitar. Estávamos perto de eleições autárquicas e o tema pareceu-me pertinente. Passadas que foram essas eleições não seria coerente da minha parte omitir algumas conclusões.

Em primeiro lugar, registo a elevadíssima taxa de abstenção que continua a grassar. Tanto nos resultados nacionais como regionais e até mesmo locais esta é uma tendência que preocupa. Sensivelmente metade da população com capacidade eleitoral não exerce este seu direito fundamental!

Em seguida, e porque também me parece ser um ponto importante, a questão dos votos brancos e nulos. Em todos os patamares esta forma de “participar” no ato eleitoral cresceu demasiado.

Num caso e noutro parece-me que – e apesar da estonteante velocidade com que a (in)formação passa neste tempo que vivemos que pressuporia um maior esclarecimento e, em consequência, uma maior participação – a questão económica e social de um País dobrado pela austeridade pode ajudar a compreender estes resultados.

A questão dos independentes que também foi muito vincada no último ato eleitoral, salvo raras exceções, parece-me uma falácia. O nome não basta para a “independência”! As pessoas é que contam e essas, sobretudo aquelas que lideram ou se destacam, são bem conhecidas do meio partidário – veja-se o caso do Cartaxo.

E por falar em Cartaxo, há aqui também alguns fenómenos que são curiosos e dignos de registo. Aqui, como acontece desde sempre, desde que Abril trouxe a Liberdade, o PS, agora de Pedro Ribeiro, ganhou as eleições. Em segundo lugar ficou o candidato independente Paulo Varanda que era presidente de câmara à altura, eleito também ele nas listas do PS, tendo sucedido a Paulo Caldas. O PSD de Vasco Cunha ficou-se pela terceira posição. Confesso-me claramente surpreendido por este resultado. Como é público, a situação, sobretudo financeira, da autarquia é proporcionalmente muito mais preocupante do que a do País. Para mim, tendo ela como atores diretamente envolvidos aqueles que protagonizaram as candidaturas do PS e dos independentes, o resultado poderia ser outro. Para além disto, o facto da oposição recente ter tido um papel determinante em questões como as “águas” ou “parqueamento pago”, papel esse que acompanhou uma maioria(?) de cidadãos insatisfeitos – e que deu frutos – fazia-me esperar outro resultado.

Poderá dizer-se, no caso do PSD, que a situação nacional penalizou a candidatura de Vasco Cunha. Mas, sendo estas eleições de proximidade, a surpresa vem do facto do PSD ter mostrado ter um projeto local bem identificado. Tão identificado que na altura em que Cavaco Silva inaugurou o Parque Central, obra muito contestada, o PSD local não se fez representar! Ainda se lembram?

Muito mais poderia dizer-se mas o texto já vai longo. Para terminar, uma palavra de agrado pelo discurso de tomada de posse do candidato à presidência da câmara eleito no Cartaxo. Foi um discurso de conciliação muito positivo, claramente atento ao facto dos vencedores terem perdido a maioria absoluta. A ele, mas também a todos aqueles que se submeteram a votos e conseguiram ser eleitos os meus votos sinceros de um proveitoso mandato. O desempenho destes eleitos poderá e deverá ser responsável para que em próximos atos eleitorais os cidadãos se sintam mais envolvidos na participação efetiva pelo voto. A participação de que falamos é sinónimo de uma sociedade desenvolvida que todos ambicionamos.

José Augusto de Jesus

Advogado