SAMUEL PIMENTA

samuelpimentsmallNão sei o que será do mundo. Sei o que farei dele, mas o que farão com o que o que eu fizer não me cabe a mim controlar. Resta-me a certeza de que farei o melhor sempre, que viverei por inteiro e não me limitarei à metade dos dias. Que mundo este que se limita à metade dos dias… Tantos são os homens e tantas as mulheres que vivem orientados pelo limite, que se privam do todo para viver a parte. A realidade em fragmento. A realidade ilusória. E ali ficam, imersos numa circunferência cujas paredes estão ao nível de um salto, um salto apenas! Flectir as pernas, empurrar o chão com os pés e pular. Ora, saltar para quê, se é tão bom estar aqui no meu canto?

Vivemos dentro de bolhas e fazemos questão de não nos cruzarmos. A minha bolha é melhor que a tua, pensamos. A implementação de uma visão holística da realidade ainda está muito distante, isso é tradição lá das ásias, eles só comem arroz e têm os olhos em bico, que sabem eles? E que sabemos nós? Por vivermos cada vez mais fechados nas nossas bolhas, iludidos com a falsa interacção que o progresso da tecnologia permite, estamos a elevar paredes maciças diante do nosso olhar. Estamos a criar humanos que comunicam mal e que não vivem segundo o ritmo do planeta, mas de forma mais rápida e desarmoniosa. Com estas paredes que nos aprisionam, estamos a permitir que o medo do outro nos controle e criaremos humanos que o não são.

Lembro-me que a minha parte preferida do jogo das bolas de sabão era o momento de fazer a bolha explodir e deslumbrar-me diante das minúsculas gotas de água a desvanecerem-se com o vento. Já são tão poucos os que se deslumbram, os que permitem que o êxtase interrompa a velocidade alienante que nos controla. Religuemo-nos novamente. As casas foram construídas para nos dar abrigo, não para servirem de sarcófago. Quanto tempo mais adiaremos a hora de olhar o céu demoradamente para sorver todo o ar que nos rodeia? Quanto tempo mais prolongaremos este divórcio com as plantas, com as aves, com os rios, com o mar? Quanto tempo mais fingiremos que somos máquinas desprovidas de emoções, quando são as emoções que nos diferenciam e dão beleza?

Os pescadores dizem que as águas do mar são lágrimas. Pois no dia em que os homens despertarem e virem o que fizeram com o mundo, chorarão. E nesse dia nascerá um novo mar.