SAMUEL PIMENTA

 samuelpimentsmall«Deus disse: "Que exista a luz!" E a luz começou a existir.»

Génesis 1, 3

A tradição judaica ensina-nos que a palavra é vida, que é da palavra que emerge o início, é a palavra que principia, que cria e constrói, que ordena. Antes dela, o vazio, o silêncio e o caos.

«Deus disse: "Que exista a luz!" E a luz começou a existir.» A vida começou a existir. Separaram-se os extremos e fundiram-se os iguais. Nasce o dual e a consciência, nasce a crença e o julgamento. A palavra de Deus, o Verbo, tem esse poder gerador maternal, de concepção. A nossa palavra tem esse poder.

Organizamo-nos mediante as palavras que nos nomeiam, que nos definem. Alto, magro, olhos castanhos, cabelo escuro. As palavras projectam-se em nós sempre que as pronunciamos ou as ouvimos e lemos, imagens feitas de som ou inscritas em traços desenhados, caracteres, letras. Permitem-nos apreender o real, suportá-lo, vivê-lo, e comunicar. Sempre que uma palavra é dita ou escrita, carrega uma vida própria, um significado único. De cada vez que escrevemos ou lemos ou ouvimos uma palavra, estamos diante desse Verbo inaugural de Deus, do nascimento da vida que se repete uma outra vez.

«No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Tudo foi feito por ele; e nada do que tem sido feito, foi feito sem ele. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.»

A palavra é vida e luz e escrever é repetir esse acto inicial e sagrado, como um rito. Sempre que uma palavra se nomeia, é Deus que a pronuncia através dos nossos lábios. A palavra de Deus é toda a linguagem dos homens. Cabe ao escritor zelar pela repetição do nascimento dessa palavra inaugural. O acto de dizê-la, de a trazer à luz, à vida. «Deus disse». O homem disse. Somos os que guardam o templo, os que ainda acendem o incenso e mudam os óleos sagrados. Cabe ao escritor repetir, recriar a ordem primeira. Repetir o início infinitamente na pluralidade de vozes que o integram. É ele quem ainda honra o nascimento da palavra à sacralidade da vida, ao legado do Verbo: a pluralidade de palavras que originou.

Assim se vai escrevendo a palavra de Deus. Assim se mantém viva a luz.