SAMUEL PIMENTA

 samuelpimentsmallCasaram pelo dia de Santo António, já que não foram a tempo de ter vaga para o dia de Nossa Senhora de Fátima. Ele, Manuel Ócio. Ela, Maria Maledicência. Conheceram-se num bailarico de Verão na terra. Ele apalpou-a enquanto dançavam, ela fez-se de difícil, embora gostando, e não tardou muito já estavam aos beijos. Casaram em pouco tempo, foi amor à primeira apalpadel… vista, quero dizer. Logo depois de casados, passaram a ser conhecidos lá na terra por Doutor Ócio e Doutora Maledicência, sempre soa mais respeitosamente do que Maria Maldizenta e Manel Preguiça, como eram tratados por alcunha. Afinal, ela era licenciada e ele… Bem, ele pouco pisara a faculdade, mas tinha participado na queima das fitas e até exibia o diploma numa moldura. Portanto, Manel Preguiça e Maria Maldizenta… perdão, Doutor Ócio e Doutora Maledicência tinham direito a ser tratados segundo tão honrada condição. O Senhor e a Senhora estão no céu e o Dom e a Dona já são de um tempo empoeirado e bafiento e, por isso, exigiam o Doutor e a Doutora. Assim seja.

Ele pançudo, quase careca e barba por fazer. Adepto incondicional de futebol, do tremoço e da cerveja. Ela magra, quase escanzelada, olhinhos pequenos e boca fina. Beata da Igreja Una Santa Católica Apostólica Romana e coleccionadora de livros, embora não lesse nenhum. Por vezes, lá se passeava com o filósofo que tinha saído com o jornal do fim-de-semana debaixo do braço, mas rapidamente se cansava daquelas ideias nebulosas, afinal o livro nem história tinha e era tão difícil falar dele às outras pessoas. Mais um para decorar a estante. Espera-se pelo fim-de-semana seguinte, pode ser que saiam umas poesiazinhas de amor. Os poemas sempre se lêem mais rápido.

Manuel Ócio era homem de ficar por casa. Encomendava comida quando Maria Maledicência não estava e quando estava era raro ajudar na cozinha. Já ela, não dispensava a ida diária ao café para saber das novidades do bairro ou o almoço com as amigas para ter a versão mais actual da vida de cada uma. Ele não entendia como havia tanta gente a fazer tanta coisa nova: ora eram as empresas, os livros, as teorias, os carros, as casas. Ficava confuso, coitado! Ela via defeitos em tudo, era impossível que os outros fizessem o que quer que seja bem feito. Nada escapava ao desdém do Doutor Ócio e da Doutora Maledicência: os do novo movimento social eram uns arruaceiros e punham em causa os bons costumes, o novo artista consagrado era um vaidoso e só ganhara o prémio por ser amigo do júri, o novo empresário em destaque só enriquecera porque traficava droga e o novo produto que criara era, na verdade, uma porcaria. Tudo o que qualquer pessoa exterior ao casal Ócio e Maledicência pudesse fazer tinha defeito. Afinal, eles eram os únicos que detinham as boas ideias que existem no mundo.

Viviam numa casa insignificante e bacoca e nunca falaram de a trocar. Ao título de Doutores, apenas faziam jus por serem peritos em fazer chacota de tudo o que existia do mundo e por não acrescentarem nada de novo à realidade, à excepção de mais inércia e inveja. Na verdade, sentiam-se mais do que tudo o resto: mais importantes, mais inteligentes, mais capazes, mais merecedores. E nessa atitude de superioridade e de cinismo, ainda vivem num casamento que dura há tempo demais e do qual nasceu um único filho. Um rapaz.

No dia do baptismo, o padre perguntou que nome dais ao vosso filho.

Portugal.

Chamaram-lhe Portugal.

Pois bem, exijo o divórcio de Manel Preguiça e de Maria Maldizenta. Perdão, do Senhor Doutor e da Senhora Doutora. Eu até sei que é um casamento a que a maioria dá a bênção bovinamente, que até gostam da pança do Manel e dos olhos pequeninos da Maria. Custa tanto fazer alguma coisa e falar é tão fácil para eles, eles falam tão bem… Até são inteligentes, não é? Ele sabe tanto de bola e questiona tanto o que os outros fazem e ela sabe os nomes todos dos escritores e é tão devota… Até são gente culta, gente porreira! Mas que fazem eles além de blablabonear? Que fazem eles? Fazer, acto de criar, construir, realizar. Que fazem eles?

Pois que se acabe com esta farsa de gosto duvidoso! No dia em que Manuel Ócio e Maria Maledicência casaram, não o fizeram diante de um padre, mas de mafarrico. E a maldição instalou-se entre nós.

Pois que descasem! Ou serão banidos a pontapé.