SAMUEL PIMENTA

Em todas as casas há um quintal e ao fundo do quintal um galinheiro onde se criam as galinhas. Ali se deitam os restos do almoço e do jantar, a trinca, o milho e o que sobra do corte dos legumes: as cascas, os talos, as folhas podres ou mirradas, as sementes. Quando o pão escurece com o bolor ou quando a sopa azeda, também a mulher desce ao quintal para servir novo banquete às galinhas. Aproveita a viagem e traz dois ovos, que o terceiro comeram-no as aves famintas. A mulher aprendeu com a mãe que é ofício da galinha bicar sem olhar a quê e, por isso, há que mantê-las diante do prato certo, não vão elas comer o que não era suposto. E não importa se são poedeiras, pedreses, fracas ou garnisés. Interessam-nos galinhas gordas, rendem mais. Ao estômago e à carteira.
O dia de uma galinha varia muito pouco: ora se abrem as portas da clausura para bicar um pouco da erva do quintal e iludir a ave com alguma liberdade; ora se está no choco ou a fugir de um galo mais atrevido; ora se está a engordar mais um pouco e a dormir com ar imperial. Assim que a hora de alimentar as galinhas chega, a mulher desce o quintal com o tacho dos restos do dia anterior e abre a galinheira. Hoje, restos de guisado com pão e algumas couves já amarelas. A mulher entra na capoeira e as aves correm na sua direcção de asas abertas, cacarejam, sabem que a comida chegou e há que festejar a hora do alimento. Em grupo, sempre em grupo e muito certinhas na desordem que lhes é habitual. Afinal, a hora do alimento é a mais sagrada de todas e todos gostamos quando há um dono que nos dá algo que comer, é esse o seu propósito: alimentar o gado, engordá-lo. Comê-lo.
No dia da matança, as galinhas estão tão gordas que nem mexem. Algumas ainda saltitam, mas nenhuma escapa ao golpe mortal da mulher que as alimentou até então. Estão gordas e pesam e nem a imposição da morte as faz levantar. São degoladas uma a uma, ainda as esvaziam de sangue por dentro e em pouco tempo estão depenadas e com as entranhas de fora. Tudo se aproveita de uma galinha que sempre comeu os restos sem questionar. É para isso que nos criam. Interessam-nos galinhas gordas, rendem mais. Dizem.
A mulher enche as arcas e compra novas galinhas para a capoeira. Há que manter a roda a girar. Dono que alimenta galinhas, galinhas que engordam, dono que come galinhas. É sempre assim. Desta vez, a mulher comprou galinhas carecas. Vai vê-las crescer, vai dar-lhes os restos, vai roubar-lhes os ovos, vai iludi-las com a liberdade nos dias em que as deixar bicar as ervas do quintal, vai engordá-las, vai fazer com que pensem que é amiga, vai fazer com que se juntem em festa sempre que a virem a entrar na capoeira para trazer mais comida e, num dia, vai entrar com a navalha no bolso e vai matá-las, uma a uma, para as poder comer. Nesse dia último, as galinhas confiarão tanto na presença da mulher que nem se atreverão a abrir os olhos para escapar da morte. É o que acontece às galinhas que não pensam, que comem tudo quanto lhes dão e que, de tão gordas, não levantam o cu do poleiro onde estão a dormir.
Enquanto isso, os donos vão engordando mais e mais galinhas para que possam comer mais e mais galinhas enquanto mais e mais galinhas se alienam na ilusão que lhes impuseram diante dos olhos: o alimento que os donos nos trazem é para nosso bem. No fundo, vivemos todos numa grande capoeira em que, por vezes, nos abrem as portas para irmos, serenamente, bicar da erva que cresce no quintal e cacarejar. Mas chegará o dia em que, quando a porta abrir, não será a mulher meiga a trazer-nos comida, mas a dona que vem para nos cortar a garganta.
Cacarejem, cacarejem muito. Ainda falta tanto para que chegue o dia…