Samuel Pimenta

Sempre tive medo do escuro. Em criança, mergulhar no ar negro da casa era como entrar num mundo novo e ameaçador, onde o bom e o belo não existiam. Sempre acreditei na beleza, na pureza do ser, na luz. O escuro, para mim, representava a ausência de tudo isso. Sentia o horror de não mais ver as formas, as cores, de não mais ver a vida diante de mim. Lembro-me de correr sempre que o escuro se impunha. Corria para que a imersão na ausência de luz fosse rápida e para que não me cruzasse com a maior das ameaças que habita o escuro: os monstros. Nunca vi nenhum. Melhor, vi alguns, mas nunca diante dos meus olhos físicos, sempre me apareceram em sonhos ou em pensamento. Ou no escuro, apareciam sempre no escuro. Sussurravam, riam, alimentavam-se do meu medo.

Hoje, sei que os monstros não existem. Não como eu os imaginava, com chifres, escamas, dentes afiados e olhar hipnótico. Os monstros são tão humanos quanto eu e não precisam do escuro para se esconder. Vivem sob a luz do sol trazendo o escuro à Terra. E todos os dias aparecem mais, todos os dias se impõem mais e dão-nos ordens e decidem roubar e fazem guerra e matam e mentem e apagam ainda um pouco mais da luz do mundo.

Nunca superei o medo do escuro. As casas sombrias amedrontam-me. Gosto de janelas largas, do sol a entrar na casa e da lua. Gosto da noite iluminada pelas estrelas, de velas e candeeiros que nos aquecem por dentro. Não gosto da ausência da luz. Temo-a. Temo que a sombra se abata sobre a minha casa, sobre a minha vida. Temo a privação do pensamento e da liberdade do ser. O escuro, hoje, representa tudo isso. A ausência do sorriso e da fé, das manhãs claras e do bem no mundo. Temo o dia em que a Terra viva escura, sem dia, sem sol, sem luz. Será possível vivermos assim, como se nunca tivéssemos tocado o lado bom e limpo da vida? Será possível sobrevivermos ao dia em que o último raio de luz tocar a face da Terra? Não creio.

Temo o escuro e os monstros que o criam e o habitam. Mas há uma diferença, hoje, entre o homem e a criança que temia a ausência da luz: embora ainda o escuro me amedronte, estarei sempre aqui para lhe fazer frente, como um farol que se ergue sobre o mar, à espera, à espera do dia em que a sombra devore a Terra e chegue até mim. Não é função dos faróis irromper pela noite e iluminar os caminhos? Iluminarei sempre o caminho com a minha verdade, com a minha palavra. É essa a minha função de poeta. É essa a minha função de humano.

Samuel Pimenta,

Escritor