SAMUEL PIMENTA, Escritor
Ao longe parecem recortes ovais e escuros que emergem da pedra lisa e branca das escadas. Mais perto, percebo que se movimentam baixo cima, baixo cima, baixo cima, e que os escuros são cabelos e os ovais cabeças. Pessoas, arriscaria a dizer.
São oito da manhã e estou no metro a caminho do trabalho. A máquina mulher anuncia próxima estação e sei que é ali que tenho de sair. Vejo na minha cabeça um já não era sem tempo a erguer-se confiante, aliviado; passar por sete estações subterrâneas fechado num paralelepípedo gigante e esguio, qual serpente de latão, e esmagado entre a mulher de fato e o homem que vai à primeira entrevista de emprego do dia, que durante o mês é já a décima quinta, mais uma por videochamada para o estrangeiro, não é, seguramente, o meu ideal de amanhecer. Preferia acordar na praia, com a húmida maresia a afagar-me a cara, o bom dia líquido do mar, o céu ainda povoado de estrelas que se despedem com a manhã. Contento-me com o despertador automático do telemóvel, esse assassino de mundos que só em sonhos temos entrada, e uma preguiça incontrolável em levantar-me da cama.
São oito da manhã e estou no metro a caminho do trabalho. Atrasado, o que piora tudo. A serpente de latão pára, tocam as sirenes luminosas que anunciam o parto, e uma imensidão de gente sai-lhe das entranhas e invade a plataforma. É ali que eu estou, no meio da multidão. Marchamos lentamente rumo a um destino comum, como se a vontade nos tivesse sido castrada e imperasse o sentido de obrigação. Os novos soldados dessa nova ordem mundial. Trabalhar para comer. Trabalhar para viver. Trabalhar. Nada na vida se consegue sem trabalho, ouço uma voz antiga, de memórias distantes, que se esvai assim que se anuncia. O trabalho alimenta a economia, gera dinheiro. E dinheiro alimenta-se de dinheiro. É canibal. Daí o perigo.
O metro parte, ventre limpo. Ao meu redor, cabeças baixas e pés que se arrastam. No longe, os recortes ovais e escuros que são cabeças e cabelos num movimento baixo cima, baixo cima, baixo cima. A multidão que sobe as escadas. Uma multidão de silêncios e receios, gente que marcha rumo ao desnorte porque assim tem de ser. Porque lhes disseram que era assim e sempre foi assim. Uma humanidade em bloco, padronizada segundo as tipologias que uns poucos definiram, é uma humanidade conveniente e rentável. E os que ousarem romper esse talhe, essa escultura tão perfeitamente arquitectada, são párias e indesejados.
Ali, no meio da multidão, vendo o movimento baixo cima de quem sobe as escadas, pergunto-me quem trabalha para quem? É o trabalho que trabalha para nós, ou somos nós a trabalhar para o trabalho? O que é a humanidade e que função desempenha no mundo? É a obrigação de pagar a água, que tem dono não sei porquê, já que é da chuva e das entranhas da terra que ela nasce? É a obrigação da pagar a renda da casa, a obrigação de fazer compras, a obrigação de comprar um carro e de ter um seguro ou dois e fazer um empréstimo para comprar casa e mudar passados três anos? Somos demasiado importantes para vivermos escravos desta nova ordem mundial. E olhar a gente que me rodeia e marcha sem questionar uma única vez assusta-me.
Enquanto marcho com todos os outros, cabeça erguida, surge a ideia ainda é fácil controlar a humanidade e há quem o saiba muito bem. Talvez seja o único a levantar a cabeça e a perceber que não consigo caminhar mais rápido porque, à minha frente, há uma imensidão de gente que marcha aprisionada e me impede de seguir o meu curso natural. No entanto, penso e questiono. E enquanto pensar e questionar serei livre. Serei eu. Mesmo que, aos olhos de quem nos tem vindo a castrar, possa parecer o mais alheado dos soldados que, todos os dias, se levanta preguiçosamente da cama para cumprir com o que dita a obrigação. Esse líder sem rosto não sabe, nem poderá saber, que embora a obrigação, por vezes, me faça marchar, é a vontade que dita o rumo de cada passo firme que posso dar. E enquanto caminhar segundo a minha vontade, cada passo meu segue o rumo da verdade do meu ser. A liberdade.
Samuel Pimenta
Escritor
SAMUEL PIMENTA, Escritor