SAMUEL PIMENTA, Escritor
Que dizer-te deste azul do mar que vejo e que é saudade e esperança em mim? Que dizer-te da lonjura do céu e da firmeza desta terra que me sustém de pé? Que dizer-te das plantas verdes, das flores, das sementes que renovam a vida no mundo? Que dizer-te das pedras macias, do gelo que queima, do fogo que aquece? E do cigano e do branco, do índio e do preto? Que dizer-te dos livros, dos poemas, da arte? Que dizer-te, realidade, do vento que me afaga o rosto, da chuva que me lambe a pele? Compreenderás o que te digo? Compreenderás a extensão do horizonte que te desenho? Que dizer-te do que vejo e oiço e toco, se és tão distante do que vejo e oiço e toco?
Diz-me, realidade, que dizer-te do real em mim, que dizer-te da verdade que é minha e de mais ninguém? Dir-me-ás que sou parte integrante de ti? Que sou somente um reflexo do que projecto no mundo? Ou manter-me-ás no paralelo, no que ao esquecimento é remetido? Que realidade és se renegares a realidade em mim? Opressora? Vil? E em que te transformas tu se me incluis e me abraças? Continuarás a ser realidade? Ou adoptarás outro nome, como quem muda a identidade? Diz-me, realidade? Não és tu um espelho do que eu sou, do que todos somos? Porquê insistires em singularizar o que ao plural pertence? Acaso tu, realidade, não és somente o que as realidades determinam que sejas? Um um feito de uns?
Que dizer-te, realidade, da minha realidade, se insistes em afirmar-te única e imutável? Acordarás um dia percebendo que em vez de única poderias ter sido múltipla? Que ainda viva eu quando chegar a hora. Aqui ou noutro lugar que seja.
Samuel Pimenta
Escritor
SAMUEL PIMENTA, Escritor