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SAMUEL PIMENTA, Escritor

O holismo assenta na premissa de que o todo influencia a parte e que a parte influencia o todo. Se me doer um braço, não trato apenas o braço, mas todo o corpo de que faz parte. A dor da parte é reflexo do desequilíbrio do todo. A dor do todo é reflexo do desequilíbrio da parte. Antes da teoria do holismo ser aprofundada no ocidente, as terapias ancestrais do oriente já a aplicavam. E é fácil de entender. É fácil de aplicar. Embora o ocidente ainda resista.

A medicina convencional trata a parte em vez do todo. Dor de cabeça, comprimidos para a cabeça. Dor de costas, comprimidos para as costas. Pedras nos rins, operação aos rins. E ao nariz, à garganta, aos ouvidos, aos olhos, aos braços, às pernas. A tudo. A medicina convencional, além de invasiva, divide e subdivide a noção de corpo, a noção do todo. Dói a parte, trata-se a parte. Próximo.

Não defendo que as terapias holísticas são melhores do que a medicina convencional, nem o inverso. Ambas são necessárias em complemento. Contudo, se praticar regularmente terapias holísticas, a probabilidade de recorrer à medicina convencional é reduzida. Todo saudável, partes saudáveis. E este algoritmo aplica-se a tudo o que existe. É uma lei universal.

Olhemos Portugal como um grande corpo dividido em partes. Portugal é um corpo que agoniza em dor. Todos o sabemos, estamos cansados de o saber. O todo está doente e há tempo demais. Agoniza em dor por as partes que o formam terem contraído vírus que as consomem. Algumas, identificamo-las ao primeiro olhar. A carne apodrece e o pus escorre. Outras, permanecem ocultas e por descobrir. Pele lustrosa e corada por fora, cancro que cavalga mortalmente por dentro. Às partes doentes que se mostram aos nossos olhos, damos drogas e fazemos sangrias para que se curem. E o todo grita, agoniza nauseado. Das outras partes que não vemos, pouco poderemos fazer. Quando forem visíveis aos olhos, será tarde demais. Tratamos Portugal à ocidente, medicina de guerra, invasiva. Dói a parte, trata-se a parte. Gangrena no pé? Corta-se o pé para que se salve a perna. Se funcionou em tempos? Talvez. No entanto, foi esse sistema que nos trouxe até aqui.

Centro de esquerda troca com centro de direita e centro de direita troca com centro de esquerda. Rotatividade de horizontes limitados. Políticas e leis injustas? Vozes que gritam na rua e governos que caem para que se ergam governos assentes em novos pilares que irão ruir também. Rotatividade de horizontes limitados. Venderam-nos uma democracia que é uma farsa. Não existe. E digo-o porque a ditadura em que vivemos é pior do que a que terminou em mil novecentos e setenta e quatro. Salazar foi um tirano, mas tinha rosto. Hoje, os tiranos não têm rosto. Têm, sim, marcas e logótipos, as capas que os cobrem. Mantém-se a farsa de uma política que, em vez de servir as pessoas, serve a economia. Os cancros que não vemos.

Tenho reflectido em formas de contornarmos esta realidade que nos venderam e que nós comprámos. Comprámo-la ingenuamente, pensávamos ser a melhor opção. Hoje, claramente, não é a melhor opção. E como vencer o sistema, de que forma podemos fazê-lo? Deixei de participar em manifestações quando percebi que continuamos a tratar a parte em vez do todo, à boa maneira ocidental. O governo decidiu injustamente? Derrube-se o governo! Vozes que gritam na rua que, agora, nem escutadas são. As encenações de poder foram desconstruídas e já não cumprem com a sua função, a de sossegar as massas. Agora, nós, as massas, como nos chamam, estamos inquietos, despertos e atentos. Somos pessoas. E é um bom passo para resgatarmos o nosso poder pessoal e assumirmos a nossa responsabilidade cívica. Digo cívica porque o cerne da doença de Portugal, e da Europa, não é político, mas civilizacional.

Reconheço e defendo o valor simbólico avassalador da manifestação. Mas de que nos serve irmos gritar para a rua, gastar energia, ostentar cartazes e exigir que o governo se demita, se a repetição desse padrão é a responsável pelo momento que vivemos? De que nos serve reivindicar e exigir, se acabamos o dia em casa a ver e a ler o jornalismo demagogo que legitima e dá voz ao sistema que não queremos mais? De que nos serve gritar em prol de um país mais justo quando somos os primeiros a criar hostilidades internas e sectárias? De que nos serve desejar que se acabe com o sistema, se todos os dias vamos ao supermercado comprar os produtos da marca que não é responsável ética e civicamente? De que nos serve bradarmos em defesa da democracia, se somos os primeiros a não assumir responsabilidades? Sugiro que façamos mais. Rasguem-se os jornais e desliguem-se as televisões. Aceitemo-nos na diferença que nos define enquanto seres. Sejamos humanos que compram em consciência, boicotando as empresas que desequilibram o todo. Responsabilizemo-nos. Hoje e sempre.

Não sei o que nos espera. Sei, sim, que para invertermos os padrões a que nos habituaram, urge que assumamos o cidadão e a cidadã que somos. Vivamos em função de um país melhor em todas as inspirações e expirações das nossas vidas, em vez de nuns meros gritos por umas horas. É importante mostrarmos que estamos descontentes. No entanto, estamos a reflectir no passo a dar depois desse momento? Estamos a agir com método, a ponderar soluções viáveis? Não. O padrão é ir para casa, ligar a televisão demagoga, ver o programa alienante, jantar os alimentos da marca que se alimenta de nós e ir dormir com o sentimento de impotência e fracasso. O caminho é outro. O caminho tem de ser outro. Tratar o todo para resolver a parte. Unamo-nos, criemos alternativas credíveis ao sistema partidário corrompido. Aceitemos todas as pessoas cujo mérito e experiência sejam porta-estandarte da excelência e da verticalidade, legitimando-as, em vez de nos perdermos em salamaleques com a família brasonada ou o amigo do filho do amigo da família brasonada. A democracia só será salva quando for feita por cidadãos que, mais do que um partido, são uma pessoa individual que quer levar a pluralidade do país a bom porto, pautando-se pela ética, pela justiça e pela verdade. E, sempre, de forma desprendida. Ter a sabedoria para permitir que alguém melhor do que nós ocupe o lugar que tem sido nosso. A parte em prol do todo. O todo em prol da parte.

Corro o risco de ser ostracizado com este texto, bem sei. Nem só pró-governo, nem pró-contragoverno. Sou pró-outracoisa: resolver, de vez, a doença, em vez de lhe ir tratando as feridas. Pessoalmente, deixei de participar em manifestações. Embora solidário com a maioria das causas, noto que insistem em ignorar a visão holística da agonia de Portugal. Derrubar mais um governo? Para quê, para derrubar o outro que virá? Não. Precisamos de alternativas. E só as poderemos encontrar através de nós, cidadãos. Estamos mais vigilantes e conscientes do que nunca. Sabemo-lo. Mas também o sistema o sabe. E por sabê-lo tão bem, tentará ludibriar-nos como sempre fez.

Estamos à espera de quê para assumirmos o governo do nosso próprio destino? Os primeiros passos foram dados. Que se dêem os seguintes.

Samuel Pimenta,

Escritor



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