SAMUEL PIMENTA, Escritor
Para a Ana
Era loira. E em vez de rir, relinchava quando estava feliz. Estava sempre a relinchar, estava sempre feliz. Se não estava feliz, relinchava para ficar feliz. E sorria, sorria com o seu sorriso mágico, raio de luz capaz de apagar a escuridão. Sorria com os olhos feitos de safira azul e limpa. Nunca vi olhos assim… tão azuis, tão brilhantes, tão reais! Olhos que abraçam, olhos que nos beijam. Olhos que amam.
A mulher de cinquenta anos no papel, cento e cinquenta em sabedoria e cinco anos em felicidade é a pessoa mais feliz que tive a oportunidade de conhecer. Leva uma vida simples, por vezes excêntrica e em todos os segundos autêntica. Acredita que amar incondicionalmente o outro é o caminho para uma nova terra, para uma nova consciência humana. E ama genuinamente tudo e todos. Se lhe perguntarem se é amada, dir-vos-á eu sou profundamente amada pelo universo num grito de euforia e êxtase. É realmente amada, sei que sim. E ama realmente. Poderia guardar todo esse amor e plenitude num cofre e enterrá-lo debaixo de uma árvore para mais ninguém o receber. Mas não. A mulher escolheu partilhar todo o amor que recebe, todo o conhecimento que adquire, toda a felicidade que dela emana. Abraça, respeita, motiva, alegra, ama. Ama. A mulher ama incondicionalmente.
Não tem muito mais do que um metro e meio de altura. No entanto, gosto de pensar nela como uma emanação de deus. Todos o somos, uns com mais consciência do que outros. E dizem que isso não se mede em altura, mas em alma. E quanto a alma, a da mulher é das mais belas que conheci.Sei que a mulher é como um deus na terra, um messias que diz sejam felizes, sejam o que são, amem-se e amem o outro. E di-lo por saber que no outro existe a mesma essência de divindade que habita dentro dela mesma. Di-lo para que o outro se aproxime mais do divino, para que recorde a essência que o define. Pois para essa mulher que relincha quando está feliz, o divino manifesta-se através de gestos de amor pelo outro. Pelos homens, pelos animais, pelas plantas, pelo ar, pelas pedras. Pela Terra! A mulher acredita que é amando que nos construímos, que é amando que nos fortalecemos, que é amando que nos consciencializamos. Acredita que é amando que formamos uma humanidade coesa e verdadeiramente humana. Ecom isso, faz-me acreditar que ainda existe bondade, pureza e esperança. Os olhos azuis enfeitiçaram-me. O riso que não ri, mas relincha, impregnou-me de alegria. O abraço terno acolheu-me sem condicionantes. Acredito, como a mulher, que é amando que o mundo pula e avança.
Posso viver numa utopia. Podemos viver ambos num mundo fantasioso e desconexo ao olhar alheio. Enquanto houver um único humano na Terra que acredite que é possível viver numa realidade que assenta num amor transcendente por todos os seres, sei que a utopia não morrerá e que continuará acesa como um farol que indica o caminho.
Até lá, a mulher de cabelos loiros, olhos azuis, pouco mais de um metro e meio e que é simples e excêntrica ao mesmo tempo, continuará a relinchar e a fazer sorrir quem nela se inspira quando a ouve dizer eu te amo.
Samuel Pimenta
Escritor




SAMUEL PIMENTA, Escritor


