SAMUEL PIMENTA, Escritor
Nunca se falou tanto de cultura como agora. Talvez porque os tempos a isso obriguem. Falar de cultura é falar da identidade de um povo, é falar da mais elevada expressão dos homens. E talvez nunca se tenha falado tanto de cultura como agora porque, até agora, nunca as identidades dos povos estiveram tão ameaçadas. Talvez se fale tanto de cultura agora porque é tempo, é hora, de salvar a mais elevada expressão dos homens. Cultura. Arte.
Portugal é um mau exemplo cultural no mundo. Não pelo valor e universalidade da cultura portuguesa. Não! Portugal é plural como o Universo, atrevo-me a reinterpretar Pessoa. Mas este Rectângulo é um mau exemplo cultural no mundo pela castração dos homens e mulheres que fazem arte. O Ministério da Cultura foi reduzido a uma insignificante Secretaria de Estado e o investimento feito nas artes é irrisório. Pudera! Delegar a Cultura em Portugal a uma Secretaria de Estado é nada mais do que votar ao esquecimento a expressão mais elevada das mulheres e dos homens portugueses. Porque nos tempos em que vivemos não convém que se expressem elevadamente homens e mulheres. Não! É mais propenso à manutenção do estado das coisas se homens e mulheres não se expressarem, sequer! Que leiam livros acéfalos. Que vejam programações televisivas alienantes. Que vejam filmes ocos. Que não levantem o cu do sofá para ir ao teatro, ao museu, ao bailado, ao concerto, porque está caro ou porque fechou. Não convém ao Estado das coisas que homens e mulheres pensem. Pensar é questionar e questionar é desconstruir e desconstruir é desmistificar o que, para alguns, tem de continuar místico e envolto em neblina. Então, não se investe na cultura, promotora por excelência do pensamento. Não se pode investir, não há verbas. Que pena. Dizem eles. Facezinha tão tristonha e enfadada. Têm tanta pena, coitados. Hipócritas, é o que são! Porque investir na Cultura não é largar dinheiro ao vento. Investir na Cultura é manter desperta e salutar a mais elevada expressão humana. Arte!
Com isto, os artistas, em Portugal e por essa Europa, porque a pena e as facezinhas tristes e enfadadas não são fenómeno português, continuam a expressar-se e a promover o pensamento, o questionamento, a desconstrução e a desmistificação do mundo, ainda que condicionados. Combatem o desinteresse das massas e as barreiras impostas pelo sistema. Pelo menos não dirão que vieram ao mundo e não foram fiéis à verdade que carregam no peito.
Dentro deste contexto cultural europeu, surpreendeu-me, há dias, um peculiar caso de uma octogenária da vizinha Espanha, Cecilia Gímenez, que decidiu, cidadã preocupada, restaurar a pintura oferecida por Elías García Martínez ao Santuário da Misericórdia, em Borja. Gesto bonito e que aplaudo. A obra em questão, Ecce Homo, do século XIX, encontrava-se votada ao esquecimento e à deterioração. Não fosse a sensibilidade e preocupação de uma mulher de oitenta anos, bem como o funesto resultado do restauro voluntário e autorizado que levou a cabo, e, hoje, essa mesma obra ainda estaria na penumbra do Santuário a que foi oferecida. Curioso que, o que pode ser visto como um resultado devastador de uma obra de arte sacra, ganhou uma simbologia única que, a meu ver, deve ser conservada, em nome do historial da peça. O valor histórico ainda lá está, embora violado. Mas, tendo em conta o contexto da conjuntura em que vivemos e os contornos da história do restauro voluntário, a peça ganhou um valor simbólico que faz dela um ícone do actual estado cultural europeu.
A obra de Elías García Martínez, como a cultura na Europa, estava esquecida. Surge uma cidadã consciente que se insurge pelo bem da obra e que, inconscientemente, decide restaurar a peça. Usou os meios de que dispunha face a um sistema desinteressado. O caricato e delicioso nesta história é o restauro devastador ter-se tornado como que numa interpretação de um novo Cristo. E por muito que respeite a obra e o artista originais, os contornos e o diálogo da obra recém-criada merecem ser preservados. Pessoalmente, vejo um Cristo horrorizado com o rumo da Europa e do mundo. Um Cristo que desce à terra e enlouquece por encontrar um mundo que em nada faz jus ao mundo que pregou. Um Cristo horrorizado com uma Europa fragmentada e que votou ao abandono as obras e o saber do passado, e que com eles nada aprendeu. Um Cristo que grita, esperneia e clama ao Pai por se deparar com a injustiça social, a prepotência política, o silenciamento das Artes e o olhar sobranceiro que o mundo tem sobre o Amor. Para mim, o Cristo de Borja é como que uma aparição de um Messias que nos censura pelos caminhos que escolhemos e nos alerta para os perigos de continuarmos a percorrê-los. Recorda-me O Grito, de Munch, e todo o desespero e horror que a pintura me desperta.
Sem saber ou esperar, Cecilia Gímenez criou um ícone do mundo contemporâneo. O restauro é grotesco, a pintura é tosca. Se tem ou não valor artístico, não sou autoridade para o afirmar. Contudo, tem-no para mim. E mesmo que restaurem a pintura consoante a versão original, olharei sempre para o Cristo de Borja como um Cristo que está horrorizado com o mundo. Um Cristo que pregou um Amor Incondicional e que, retornado do Céu, o vê violado e votado ao esquecimento nesta infeliz Terra. Para amar e permitir que se seja amado basta ser-se livre, consciente e desperto. E o horror do Cristo surge quando compreende que, no mundo, parece não haver interesse em fazer dos humanos pessoas verdadeiramente livres, conscientes e despertas.
Samuel Pimenta
Escritor




SAMUEL PIMENTA, Escritor


