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SAMUEL PIMENTA, Escritor

Há um lugar no mundo a que chamo de berço. É lá onde me recolho em retiro, onde sei que o tempo se define pela mera passagem dos dias. A aurora que desponta na linha do horizonte, a noite que traz à terra o breu, as estrelas, a lua… A lua. No lugar a que chamo de berço há lua e estrelas, imensas estrelas, galáxias de estrelas. Todo o universo. Ali o tempo é o universo e por isso deixa de ser tempo, deixa de existir. Perdem importância as horas, os minutos, os segundos. Perdem importância as estações do ano, os meses, os dias. Hoje está calor, amanhã está frio. Ontem fez sol, anteontem choveu. No lugar a que chamo de berço os dias são só dias. Não há o caos frenético das horas de ponta. Não há sequer horas de ponta! Ali vive-se na simplicidade de se viver um dia após o outro, de se viver o hoje, o agora. Serenamente. Ali vive-se com os pés assentes sobre todo o universo. E é no lugar a que chamo de berço onde está a casa que cresceu comigo. Sim, a casa que cresceu comigo:o que eu ganhei em idade, ganhou a casa em anexos e mudanças. E é essa casa que cresceu comigo que tem tudo o que é preciso para que eu possa chamá-la de lar. Home, como diz a língua inglesa. No lugar a que chamo de berço existe uma casa, cor deocre, por sinal, a que chamo de lar, o meu lar.

É simples, o meu lar. As gentes do campo são simples. Ainda se coze pão no forno e amassa-se a massa à antiga. Fazem-se bolos secos e comem-se figos passados. Nas noites frias, é o tronco que arde na fogueira que aquece o serão. E há os passeios de bicicleta pelas vinhas, pelos montes. E nos dias quentes, em que a terra queima a sola dos pés, refresca-se o corpo com a água que jorra da mangueira. O meu lar é assim, feito de coisas simples. Nele, existe um pai, uma mãe, um irmão e um cão. Sim, o cão pertence à família. É com ele que corro pela lezíria imensa que o Tejo ama secretamente (não vá Lisboa aborrecer-se). E brincamos juntos. Volto a ser a criança que quer conquistar o mundo e que por isso corre, corre, corre, sem saber onde vai parar, sem querer que a impeçam de correr livremente. E o cão torna-se todos os cães e gatos e pássaros e todos os animais de estimação que já formaram o meu lar, correndo pela imensa extensão de terra plana e fértil que o sol beija todas as manhãs sem se cansar. A lezíria. Minha lezíria…

A lezíria é o meu lar. Pisá-la, é pisar-me também. Vivê-la, é viver um grito de plenitude. Liberdade. No meu lar, a liberdade é sinónimo de natureza e a natureza é sinónimo de divindade. Há em tudo o que nos rodeia um traço da face desse Deus que nos acostumaram a escrever com dê maiúsculo. Confesso que gosto de escrever deus assim, com dê minúsculo. Torna-o mais próximo de mim. Talvez por isso o encontre quando fito o Tejo demoradamente, quando me olho nas águas espelhadas que se entrelaçam com a terra verde e sem fim. A lezíria é tão infinita quanto são infinitos os que a contemplam. Por olhá-la assim,sei que também eu sou lezíria, também eu sou natureza, também eu sou divindade. E por trazer em mim esse pedaço de lezíria, sei que, esteja onde estiver, estarei sempre na minha casa. No lar. Eu sou o meu próprio lar, pois contenho em mim todas as expressões daquele lugar a que chamo de berço. O pão que sai quente do forno, a horta ao fundo do quintal, os frutos que perfumam a casa, as noites passadas à varanda a contar as estrelas, a água que jorra da mangueira, os passeios de bicicleta pelas vinhas, o cão que corre comigo, a lezíria que não tem fim aos meus olhos, o Tejo que se entrelaça com a terra, um pai, uma mãe, um irmão.

Costumo dizer que sou de toda a parte e de lugar nenhum, que a minha morada é o universo. Contudo, como todos os homens e mulheres que habitam o mundo, nasci num lugar a que chamo de berço. Lar. O meu lar fica numa casa cor de ocre (outrora amarela), num lugarejo da lezíria. Ainda assim, sei que, sempre que me cruzar com o puro simples, com o genuíno de se ser humano, terei encontrado mais um pouco do lugar a que chamo de berço, mais um pouco da minha casa, mais um pouco do meu…

Lar.

 

Samuel Pimenta,

Escritor



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