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SAMUEL PIMENTA, Escritor

Lembro-me de estar a olhar um copo. Lembro-me de o olhar como quem olha o infinito, a lonjura do céu que se alcança com os olhos postos nas estrelas. O copo estava quase vazio, restava-lhe uma gota de água límpida e brilhante.

Lembro-me de a fitar, de desejar senti-la a tocar-me a língua e a invadir-me de uma frescura ávida e líquida. Não tinha sede, acabara de beber quase toda a água do copo. Tinha apenas o desejo de possuir aquele pedaço de chuva e de rio e de mar, o desejo de fazer parte do Todo tendo em mim a gota de água que restava no copo, o fragmento perfeito da intemporalidade do Universo.

Sabia que, se a bebesse, tornar-me-ia no Um, na divindade humana para sempre conectada ao mundo, à Terra, à unidade. Só o gesto de pegar no copo e verter a gota para dentro de mim me separava da sublime perfeição de me tornar num universo em que a água se une por fim, em que a gota se funde em mim e passa a ser eu e eu passo a ser ela e passamos a ser Um, um corpo, um mundo, a vida. A Vida. Beber a gota seria continuar vivo. Beber a gota seria o grito de que eu sou um ser que vive. O copo estava quase vazio.

No meu distanciamento do mundo, não reparei no homem vestido de cinza a aproximar-se. Sentou-se comigo à mesa e fitou comigo o copo quase vazio. Esperou até que eu lhe notasse a presença, quieto, mudo, quase ausente. Ainda assim, mesmo a saber que à mesa se sentara um estranho de cinza, quis continuar ligado à raiz daquela árvore que era a certeza de que eu e a gota de água estávamos a um mero gesto de nos tornarmos unos.

Porque olhas um copo vazio, perguntou-me por fim. Senti-me um fruto verde arrancado da árvore e que cai por terra inacabado e imperfeito. Olhei o homem de cinza, a expressão fria, a tez pálida, os olhos escuros e sem vida.Porque olhas um copo vazio, perguntava-me ele. O copo não está vazio, respondi-lhe. O homem de cinza fitou-me, sem expressão. Depois olhou o copo friamente. Voltou a olhar para mim. O copo está vazio, disse. Naqueles olhos escuros havia um arrepio silencioso, uma dor calada prestes a abraçar quem lhe notasse a presença. Não estás a ver bem, olha melhor. O copo está vazio.

Voltei a olhar o copo. Não, o copo estava quase vazio. Lá estava a gota expectante, repousando na quietude da sua limpidez. Não, o copo está quase vazio. Há aqui uma gota, disse-lhe. Ele fitou-me, o sorriso sarcástico fundiu-se à expressão fria, ao olhar sem vida. Olha melhor. O copo está vazio, afirmou. Pensas que está quase vazio, mas é um equívoco teu. O copo está vazio. Eu olhei novamente. Duvidei. E senti-me cada vez mais longe daquela árvore de vida a que me ligara, tornei-mena maçã verde que rola sobre o solo de maçãs velhas e podres. Duvidei. E voltei a olhar o copo. Não vi a gota de água. Olhei novamente. Não, o copo não estava vazio. Lá estava ela, a gota expectante.

O copo não está vazio, respondi.

O homem de cinza pegou no copo. Vi-o fazer a gota de água deslizar pelas paredes finas do vidro. A gota tornava-se mais vidro do que água. Desaparecia e aparecia, como se inspirasse e expirasse para se manter viva, para se manter gota. Vi-a fragmentar-se contra as paredes do copo, repartir-se, desaparecer. Já não era gota, já não era nada. A gota deixara de existir. O copo deixara de estar quase vazio. O copo está vazio, disse-me o homem de cinza, pousando o copo sobre a mesa. E o copo estava vazio. Já não havia gota, já não havia a promessa de nos tornarmos um só, já não havia o mundo líquido sequioso de se tornar mais humano. O copo estava vazio.

O copo está vazio, acabei por dizer. O homem de cinza sorriu. E eu senti os meus olhos a escurecer, senti a minha pele a perder a vida, senti a minha expressão a esfriar. E quando olhei a roupa que trazia, percebi que perdera a cor. Também eu estava vestido de cinza.

E no copo, pouco a pouco, surgia uma gota. Limpa, repleta de brilho. O copo estava quase vazio. Mas eu não via. Já ninguém via. E lá estava ela, a gota.Quieta, límpida, expectante, sem ninguém que a conseguisse ver.

 

Samuel Pimenta,

Escritor



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