SAMUEL PIMENTA
Levanta-te, nêspera, que já nem cama tens para te deitar. Apenas os ansiolíticos te aquietam e já nem ficas a ver o que acontece, já sabes tudo de cor. Nada mudou. Tu ainda ficaste na cama, bem quieta, à espera, à espera, a ver o que acontecia… De nada valeu, está tudo na mesma. Apenas duas diferenças: por nunca teres dito nada, já não sabes falar. Perdeste a fala. Agora, mesmo que queiras, ninguém te ouve. E como ficaste estes anos todos aí, de barriga para cima, à espera, à espera, a ver o que acontecia, engordaste. Oh, se engordaste! Se a Velha te põe a vista em cima, zás, até os caroços te trinca. Não te espantes, sabes bem que é o que acontece às nêsperas que ficam deitadas, caladas a esperar o que acontece. Foste avisada! A Velha ainda te quis trincar, mas como és chicaesperta, escapaste-lhe. As tuas irmãs nêsperas já não podem dizer o mesmo. Não dizem nada, já lá estão. É a vida, como se costuma dizer. Que Deus as tenha. Ámen.
Levanta-te, nêspera! Olha bem para ti, aí no chão deitada. Deves estar toda dorida! Não é duro demais? Compreendo que estejas muda, dopada, mas ainda vais a tempo de te levantar. Deitada só rebolas, de tão gorda que estás. Já pensaste bem o que é viver uma vida inteira a rebolar? Rebola para um lado, rebola para o outro, rebola para ali, rebola para aqui. Há-de chegar o dia em que nem rebolar consegues, pois estarás quadrada de tão gorda e os quadrados não rebolam, como sabes. Se a Velha já gostaria de te comer gorda, imagina se te apanha quadrada! Aí, nem adianta tentares fugir, não consegues. A Velha come-te e fica saciada por uma boa temporada. Olha, talvez até seja bom, pelo menos sempre serviu de alguma coisa teres ficado deitada, quieta e à espera a ver o que acontecia, tens um gesto bondoso para com a humanidade e livras dos dentes da Velha umas quantas nêsperas como tu. Pelo menos por mais algum tempo, a Velha não é pessoa de ficar sem comer por muitos dias. Mas olha, viras mártir, até não é mau. Talvez te façam umas rezas e umas promessas. Mas é isso que queres, nêspera? Pensaste bem? Queres que a boca imunda da Velha te mastigue, te desfaça? Queres conhecer-lhe as entranhas e ser fervida pelos ácidos do estômago? Queres que os intestinos te fermentem até estares pronta a sair-lhe pelo cu? Queres? Pensaste bem? Bem me parecia…
Então levanta-te, nêspera, e começa a caminhar. Não tens voz, não faz mal, e o efeito dos comprimidos há-de passar. Ergue os braços, coluna hirta, que outras nêsperas como tu hão-de querer fazer igual. Ainda é tempo de inverter a história que nos contam e escrever um novo poema imortal: em vez de ser a Velha a comer a nêspera, há-de ser a nêspera a comer a Velha. Assim seja!
Alcanhões, 22 de Outubro de 2014 – 20h13m