NÉLSON CARVALHO, consultor
Este texto não está escrito de acordo com o acordo… e interrogo-me a mim próprio porquê ? Porque ordem de razões não começo a escrever de acordo com o acordo ortográfico? Eu … e, como sou um indivíduo / cidadão normal e corrente … todos os que o não fazem...
Por que orem de razões?
É triste: no fim de uma reflexão / inventariação das motivações para o facto encontro sempre o mesmo denominador comum: por puro conservadorismo! E, depois, um conjunto de argumentos / racionalizações para dar ao conservadorismo um ar arejado e patriota. Vejamos:
- O português é a “minha” língua, a língua falada em Portugal – e depois há derivações várias. Para ser claro, isto pode ser giro como afirmação e proclamação de amor à Pátria, mas é inteiramente falso. O português é a língua falada por umas centenas de milhões de pessoas no mundo e o português de Portugal é clara e irreversivelmente minoritário.
- Se quisermos ver a questão da sua importância como língua de intercâmbios e de negócios o português de Portugal não está seguramente na primeira linha. O português falado no Brasil é, para qualquer americano, alemão, russo, chinês ou coreano, o português relevante e importante. (aliás, em ocasiões e eventos diversos, em Espanha, Alemanha, Japão, … os tradutores para o português eram … brasileiros).
- Ah … a pureza da língua e a sua identidade! É preciso “guardá-la” de alterações que a deturpam! … Bom: o que faz uma língua é o seu uso. O que a faz mudar e evoluir é o uso que lhe damos. E o uso do português é hoje impulsionado pelos seus usos português, brasileiro, cabo-verdiano, angolano, etc … Os acordos técnicos sobre a “forma actual” (e o actual não é seguramente o primeiro nem será o último) olham e consagram as formas que o uso efectivo vai produzindo…
- Já me esquecia. Mas se há vários usos do português por que razão não deixamos tudo como está e cada qual usa o “seu”? Eu cá uso o português de Portugal e em cada país assim deveria ser… Acho que por boas razões práticas. E falamos apenas de ortografia. Imaginemos os milhões de páginas e documentos que circulam entre todas os países onde a língua oficial é o português. Imaginemos um livro editado em Portugal por uma editora portuguesa – em Portugal venderá quantos exemplares? Quantos poderá vender no Brasil? E nos outros países lusófonos? Talvez valha a pena que sejam escritos numa forma comum …
- Ainda: eu cá para mim “acção” é “acção” e nunca será “acção” e “acto” e “facto” e assim por diante … Eu confesso: gosto da palavra “acção”! Embirro com “ação” como com “ato” e “fato”! É uma questão de estética e da própria identidade das palavras! Falso! É uma questão de conservadorismo. Aprendi assim e é assim que deve ser! Bom: o meu pai aprendeu a escrever “pharmácia”… e nunca gostou de farmácia mas habituou-se …
Dou-me conta disso. Do meu conservadorismo na questão da língua. Não gosto de “bué” e não uso … mas ela lá está nos dicionários. O meu “contrismo” relativamente ao acordo ortográfico mede apenas o meu conservadorismo e a minha indisponibilidade para mudar e ter que aprender novos usos e práticas da língua.
Todavia é o uso que comanda. Os acordos seguem e institucionalizam o que o uso efectivo vai construindo.
E felizmente que o português não é uma língua propriedade de dez milhões mas uma língua de várias centenas de milhões.
Ainda bem que o português é hoje uma das poucas línguas globais.
Ainda bem que um uso global comanda a evolução da língua portuguesa.
Claro: vou ver se aprendo as novas regras da nova ortografia e pôr me em linha com o mundo.
Nélson Carvalho
Consultor
