NELSON CARVALHO, Consultor

Há uns quinze dias, o Diário de Notícias publicou uma entrevista com o filósofo José Gil.

Uma frase citada de cor: “não precisamos de uma nova revolução dos cravos, precisamos de reinventar a democracia”.

Os partidos, como todas as organizações, tendem a ser conservadores. Conservar as suas estruturas organizativas, os seus métodos e regimes de funcionamento, a sua cultura de organização.

Os partidos tendem a querer conservar o monopólio da representação democrática.

Os partidos tendem a querer fechar-se no poder interno e a fechar-se ao exterior.

Os partidos tendem a considerar-se os únicos detentores da fala e do discurso político e do poder.

Os partidos, abandonados a si próprios, tendem a estar parados ou em movimento uniforme e rectilíneo, como enuncia a lei da inércia. Quer dizer: sozinhos não alteram o seu estado.

Os partidos, abandonados a si próprios, não reinventarão a democracia. Deixarão estar.

Ora, Gil tem razão: precisamos de reinventar a democracia. Porque os cidadãos não se reconhecem e não aderem aos que os representam, porque entendem que os que os representam têm um défice de legitimidade para fazer o que fazem. Porque acham que os que os representam o fazem para seu próprio benefício. Porque não confiam, porque suspeitam, porque recusam o monopólio do poder, a exclusividade da representação, a adesão e a confiança …

Mas não há democracia sem partidos.

O primeiro acto da reinvenção da democracia é alterar a organização e o funcionamento dos partidos, os processos e as regras da representação. A abertura de novos caminhos à participação. Uma nova exigência na responsabilização pela acção política e pública.

Como se pode fazer isso se os partidos, como organizações, são, em si mesmos, como todas as organizações, conservadores ?

As organizações, as empresas, as instituições, mudam por força e pela pressão dos clientes, dos utilizadores, dos utentes, dos fornecedores, do poder do que hoje se chama os ”stakeholders”- do mercado, se quiserem.

Os partidos só mudarão pela força e pela pressão dos seus “clientes”, do seu mercado – os cidadãos eleitores.

A reinvenção da democracia só se fará pela força e pela pressão do mercado do voto.

Precisamos de reinventar a democracia quer antes de mais dizer: precisamos de uma cidadania mais qualificada e mais exigente. Que reclame para lá da reclamação “reguila” – a que diz mal de tudo e de todos. Que reclame para mudar mudanças concretas. Que apresente e exija propostas e caminhos.

A reforma do sistema político, a reforma dos partidos, a valorização da representação, uma outra exigência da legitimidade política, só acontecerão se os cidadãos elevarem o patamar da sua própria condição. De se assumirem como “stackeholders” exigentes”. De não darem o seu voto por tuta e meia e três promessas baratas. De serem capazes de o vender caro, negociar duro, de exigir em troca.

Afinal o voto pode ser um produto caro, que se não dá ao desbarato, um artigo de luxo.

Quero dizer: um voto deve valer um caderno de encargos.

É altura de os cidadãos apresentarem os seus cadernos de encargos: dizerem como querem esta reinvenção da democracia.

 

Nelson Carvalho,

Consultor