NÉLSON CARVALHO, Consultor

Acaba de se abrir um ano que se fechará com as próximas eleições autárquicas.

Motivo adicional de interesse: vão ser as primeiras após a tomada de posse do actual governo de coligação PSD-CDS. Quer dizer: após o terramoto da austeridade, da brutalidade do aumento dos impostos e dos cortes nos salários e pensões,  da paralisação da economia, do disparo do desemprego, da estratégia do “custe o que custar” enunciada por Passos Coelho.

Um sentimento generalizado e visível por todo o lado e medido em todas as sondagens contra as instituições democráticas: o Governo, o Presidente, a Assembleia da República, o Ministério Público, os Tribunais.

Os partidos - todos os partidos -  fortemente criticados, contestados, atacados como grandes responsáveis pela crise.

Os políticos, constituídos num grupo social homogéneo, passam por ser todos iguais e assimilados à corrupção, trafico de favores e influências, verdadeira praga social.

Os militares vão se pronunciando e dando mostras … não se sabe bem de quê …

Neste ambiente - de evolução imprevisível - estas não vão ser umas eleições quaisquer, não vão ser mais umas …

O PSD teme ser fortemente penalizado e perder de modo generalizado.

O CDS gostaria de as abordar já fora do governo, mas uma coisa é certa: se não for antes, estas eleições autárquicas marcarão o ponto de ruptura. Todavia pode já antecipar-se: o CDS não vai querer coligações com o PSD em lado nenhum e vai querer candidatar-se generalizadamente a câmaras e freguesias - único modo de procurar estancar a hemorragia do eleitorado descontente …

O PS pode beneficiar - e espreita oportunidades. Mas sabe - deve saber - que o clima, o sentimento anti partidos e anti políticos favorece a abstenção e a abstenção pode baralhar tudo …

O fenómeno dos independentes encontra terreno fértil - embora as experiências concretas seja o que são e valham o que valem, e é pouco.

Junta-se a este cenário a circunstância da redução substancial das receitas e orçamentos municipais, da vontade do governo tutelar de muito perto, controlar e reduzir todas as despesas.

Curiosidades a seguir, com atenção, por cá. 

Pontos críticos: Santarém, Tomar, Torres Novas, Entroncamento, Cartaxo …

Motivos de interesse: para lá dos protagonistas - o que vão eles prometer? Como vão eles organizar os seus manifestos eleitorais? A época do asfalto e do betão (das infraestruturas e dos equipamentos) findou. O ciclo do dinheiro terminou. Os manifestos como “listas de obras” há muito que não servem para nada. O que vão eles trazer para a primeira linha? Como vão os eleitores reagir à valorização - previsível - do intermunicipal em desfavor do minifúndio administrativo, da gestão em desfavor da obra, do planeamento em desfavor do imediatismo, do ciclo longo em desfavor dos ciclos curtos, do imaterial em desfavor do material?

Como dizia o outro é chegada a altura de desaprender. De deixar hábitos e rotinas. De valorizar coisas inteiramente novas. De inventar.

Nestas eleições vamos ter que ver um laboratório de inovação política. Ou então não e talvez tudo permaneça o mesmo. Seria pena. Uma oportunidade perdida. Mas nós - as nossas aldeias, vilas e cidades: o país, não se pode dar ao luxo de perder oportunidades.

Ah ! É também uma ocasião e uma oportunidade de os partidos mostrarem do que são capazes.  E iniciarem um percurso de auto reforma, de mudança de cultura, da hábitos, de padrões, de práticas …

 

Nelson Carvalho,

Consultor