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NELSON CARVALHO, Consultor

A tendência parece clara. “As coisas estão difíceis!…”, é preciso tomar decisões duras, logo  temos que tomá-las longe do povo, distante dos votos,  mesmo contra a vontade do povo. Como suspirou Manuela Ferreira Leite há um par de anos, de modo infeliz mas exprimindo este estado de espírito, “se pudéssemos suspender a democracia por seis meses!…”  Ah , sem o povo a chatear o que poderíamos fazer! Pelo povo, claro!

Tendência, estado de espírito, suspiro perigoso. Para a democracia e para o povo, claro. Precisamos de defender que é justamente nestes estados de coisas, difíceis, duros, exigentes, que a exigência maior é a da democracia, da decisão democrática, da representação legítima e da legitimidade da representação.

Muitos representantes, eleitos, não confiam no povo? O problema é justamente o inverso: o povo não confia neles! E se os representantes fogem daqueles que representam, os representados, fonte da legitimidade, deixam de se sentir representados e procuram outras coisas. Este é o perigo que vive a democracia contemporânea: que o fosso de que vive a representação provoque uma erosão incontrolável da própria democracia e desencadeie a procura de outras soluções políticas, no mínimo, autocráticas …

Por isso é preciso elevar o patamar de exigência democrática e não aceitar a sua erosão.

Sobre a Europa, como sobre aspectos centrais das políticas públicas, para realizar o trabalho político de defesa da democracia e aprofundamento da legitimidade, é preciso ouvir o povo. Digam-nos o que querem fazer, para onde nos querem levar, por que caminhos. Mas é a altura de nos fazerem perguntas, de consultar os cidadãos eleitores sobre a nova Europa, a integração económica, orçamental, fiscal, política…

É a altura de perguntar aos cidadãos eleitores o que pretendem em matérias centrais das escolhas públicas com que estamos confrontados, a fim de definir as políticas que o Estado deve prosseguir. Se não, de qualquer modo, o povo di-lo-á na rua, de modo mais ou menos pacífico…

Os partidos, instituições centrais e essenciais na estruturação da vida democrática, estão e vão continuar a ser duramente confrontados… e precisam de responder positivamente a esse questionamento. E preciso que interpretem o que se passa no mundo, na Europa, no seu pais, e a vontade do seu povo, dos seus cidadãos.

Eu vou perguntar aos meus deputados - e sobretudo vou perguntar aos que querem ser meu deputados - sobre o que se propõem fazer nestas matérias. Vou-lhes escrutinar os manifestos e propostas eleitorais. O que propõem sobre a reforma do sistema político. O que vão fazer em matéria de combate à corrupção e clientelismo. O que se propõem mudar no estatuto dos eleitos - de todos - e impedir a promiscuidade e confusão entre actividades públicas e privadas, entra a representação dos eleitores e a representação de interesses pessoas, corporativos, económicos…

Vou querer saber o que querem fazer sobre o chamado enriquecimento ilícito, a responsabilidade da gestão de meios públicos. Claro: vou-lhes perguntar sobre austeridade e crescimento da economia e do emprego.

O meu voto vai depender do que vir, do que ler, do que ouvir. Não me absterei, isso é certo. É isto que é preciso fazer. Elevar o patamar da exigência do jogo democrático. Não procurar salvadores da pátria. Isso já experimentámos no passado. Inevitavelmente com maus resultados.

 

Nelson Carvalho



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