ELVIRA TRISTÃO, Professora
À medida que se multiplicam os casos de promiscuidade entre a política e os negócios, em geral ruinosos para a economia e para os bolsos dos portugueses, é cada vez mais frequente ouvir que os que se metem na política são todos iguais e que só vão à procura de tacho. E com isto cresce a abstenção e a culpabilização dos partidos políticos. Realidade que é cada vez mais perigosa para a democracia.
Não é verdade que a abstenção melhore a prática política, antes pelo contrário! A abstenção tem vindo a aumentar em direta proporcionalidade com a degradação da política e da qualidade da ação governativa. A abstenção não impede a eleição dos maus governantes nem daqueles que, assim que são eleitos, se estão “nas tintas” para os interesses dos seus representados. A abstenção apenas significa que abdicamos de escolher o modo como seremos governados, de que não queremos participar na coisa pública, de que nos estamos “nas tintas” para o nosso património comum. O que não é verdade. Indignamo-nos com os maus exemplos da vida pública, com os impostos desbaratados em negociatas e investimentos sem retorno para a nossa qualidade de vida.
Se assim é – e estou disso convicta -, teremos de fazer parte da decisão de escolher os que nos irão governar. Mas decidir criticamente, em consciência e informadamente. Mais do que gostar deste ou daquele partido, é preciso conhecer o conjunto de cidadãos que dão a cara e dispõem do seu tempo para tratar dos assuntos do nosso “condomínio”. O candidato a presidente é importante? Sem dúvida! Mas é importante conhecer as equipas, quem são, quais as provas dadas na vida profissional e associativa, como justificam as suas escolhas e que propostas têm para o governo da nossa terra. E digo propostas e não promessas.
Mais do que culpar os partidos pelo estado da nossa democracia, é necessário compreender que os partidos políticos são feitos de muitas e diferentes pessoas, algumas servem-nos, outras servem-se deles para investir em projetos pessoais de poder. Por isso é necessário estarmos atentos, no seio dos partidos e fora deles, para saber distinguir o trigo do joio. Porque os partidos se, por um lado, não são os diabos que fazem deles, também não são imunes a interesses e jogos de poder.
Há quem se aproxime dos partidos para desenvolver carreiras políticas e há quem se aproxime deles para contribuir para o debate e participar nos processos de decisão. Há quem se afaste dos partidos por não ter deles o estatuto a que aspirava e há quem se afaste por não concordar com as decisões tomadas, com o modo como são tomadas ou com as suas lideranças. Há os que mudam de partido em função do que estes lhes propõem e há os que, não renegando o coletivo que abraçaram, investem em projetos de liderança mais conformes com a sua visão das coisas e com a sua ética. Mal ou bem, tudo isto faz parte da política, porque as sociedades são realidades complexas, tal como a humanidade. Não nos deixemos enganar: em democracia não há falsos unanimismos em torno de um líder. Em democracia não podemos aceitar que nos digam que a democracia é muito bonita mas que temos de confiar em quem manda. Salazar, Hitler ou Franco foram desse tipo de líderes. Temos hoje alguns aprendizes desses conhecidos ditadores, quer à escala das nações, quer à escala local ou regional. Sabemos-lhes os nomes. E não queremos isso!
O que é preciso é saber o que queremos para a comunidade em que nos inserimos e quem melhores condições apresenta para garantir o que achamos necessário para a nossa terra. Pessoas que provem ter princípios comprovados em ações, cujos percursos de vida deem conta das suas capacidades em prol das suas comunidades, e com as propostas adequadas à resolução dos nossos problemas comuns e à melhoria da nossa qualidade de vida.
Por tudo isto, informe-se, participe, e no dia 29 de Setembro, por si e pela sua terra, não fique em casa: vá votar. Os candidatos não são todos iguais e os cidadãos não são uma mole de gente amorfa e indiferente ao que se passa na sua terra. O que é preciso é ir para além do slogan e dos lugares comuns. O que é preciso é “avisar a malta”.
Elvira Tristão
Professora
ELVIRA TRISTÃO, Professora