ELVIRA TRISTÃO, Professora
Em vésperas da greve nacional dos professores às avaliações, os representantes dos pais pediram aos professores que pusessem os interesses dos seus filhos à frente do seu direito ao trabalho. No entanto, representante da FERLAP afirma “não porque estejamos contra o exercício de um direito, mas porque não nos parece, a nós pais, que quem deva pagar pelas más políticas, deste e de outros Governos, sejam os nossos filhos". Ora, com esta afirmação, este representante assumiu duas coisas: que o direito à greve é inalienável e que são más políticas em contestação. Se assim é – e estão à vista de todos as más decisões lesivas para alunos e famílias -, porque não dirigem os pais o seu pedido aos governantes?
Os pais sabem que – salvo desonrosas exceções que devem ser devidamente avaliadas – os professores se têm empenhado no bem-estar e nas aprendizagens dos seus educandos. É público que o aumento de tarefas inerentes à sua profissão e grau de exigência na realização das mesmas tem sido inversamente proporcional à valorização da carreira e remunerações. Todos sabemos que as escolas são hoje lugares onde a competição – entre professores e entre alunos – esmaga as possibilidades de estes lugares serem espaços de construção de sociedades mais justas, solidárias e democráticas. Fábricas de diplomas em vez de alfobres de cidadãos, as escolas têm, contudo, contado com os professores para, a par desta obsessão pelos desempenhos e pelos exames, realizar todo o tipo de iniciativas e de tarefas, desde a negociação de formação profissional com o tecido empresarial, a participação em eventos das autarquias e outras instituições, serviço social, de psicologia,…. Como afirmou António Sampaio da Nóvoa, há uns anos atrás, "Há hoje na escola um excesso de missões. A sociedade foi lançando para dentro da escola muitas tarefas”. Todavia, os agentes dessas realizações têm sido sempre e somente os professores e, num ou noutro caso, uns poucos técnicos de psicologia em situação de emprego – também – precário.
Apesar do aumento de funções e de trabalho, e da diminuição das condições de carreira, os professores não se negaram ao que lhes era imposto. E fizeram-no com zelo e sentido de responsabilidade, como têm mostrado os resultados das avaliações internacionais levadas a cabo pelos organismos da OCDE. Mas o que está em causa agora é o seu direito ao trabalho. Com mais de 20 anos de serviço público, nas escolas dos nossos filhos, os professores são agora confrontados com o desemprego. Agora trata-se de trabalhadores que – também eles – lutam pelo futuro dos seus filhos a quem querem continuar a providenciar habitação, nutrição, educação e saúde através de um trabalho digno para o qual se prepararam uma vida inteira.
Os portugueses sabem disto e sabem também que estas políticas de depauperamento da escola pública vão, mais tarde ou mais cedo, repercutir-se nas condições e resultados da educação dos seus filhos. Por isso, em vez de pedirem aos professores que não façam greve, exijam antes a correção das políticas cegas que têm vindo a destruir a educação pública: o aumento do número de alunos por turma, uma autonomia escolar de faz-de-conta, uma obsessão pela destruição das ciências da educação e pela imposição de métodos e programas caducos, enfim, todo o tipo de tentativas para tratar do trabalho dos professores como se se tratasse de uma linha de montagem clandestina num qualquer cantão chinês.
No atual regime, do salve-se quem puder, aos poderes instalados não interessa a construção de sociedades – somente o fito do lucro num mundo global de mão-de-obra, consumidores e alimentadores da agiotagem. Se é isto que queremos, conformemo-nos com o mal dos outros, desde que não “mexam no nosso queijo”. Mas, tal como no famoso texto do Brecht, um dia serei eu e não haverá ninguém para me defender. Já foram todos levados.
Dramática a imagem? Talvez. Mas é o direito a uma educação digna e de qualidade que está em causa. Um direito inalienável aos cidadãos portugueses. Qualquer que seja a sua condição física, social, económica ou étnica. E é por isso que esta não é só uma luta de uma corporação profissional. Será tão difícil de perceber?
Elvira Tristão
Professora
ELVIRA TRISTÃO, Professora