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ELVIRA TRISTÃO, Professora

Num destes dias acusaram-me de usar palavras caras por ter classificado alguém como demagogo populista. Ora, como a demagogia, associada ao populismo, teima em se multiplicar nos nossos palcos da política, convém explicar ao que me referia e “chamar os bois pelos nomes”. Se consultarmos um qualquer dicionário ficamos a saber que a demagogia consiste na submissão excessiva de atuação política ao agrado das massas populares, servindo esse para conquistar o poder. Já um demagogo é um indivíduo que excita as paixões do povo, mostrando-se defensor dos seus interesses, tendo em vista a prossecução dos seus próprios pontos de vista. Chegados aqui, seríamos tentados a dizer, então, que de algum modo somos todos um pouco demagogos, pois, por mais que digam o contrário, todas as pessoas gostam de agradar aos outros. Mas demagogia, tal como atrás definida, coloca a tónica no interesse próprio do indivíduo, sendo o agrado ao povo uma encenação instrumental.

Conhecemos muitos demagogos, da extrema-esquerda à extrema-direita, passando por aqueles que, sabendo o quanto as pessoas estão fartas do políticos, se fazem passar por não políticos e assumem protagonismo político de relevo, e a tempo inteiro, com remuneração.

O que considerei curioso – e também perigoso, nos tempos que correm – foi a seguinte definição de demagogia: abuso da democracia. De facto, quando o poder do povo – legítimo, não obstante – é exercido sem critério e escrutínio, ao sabor de paixões ou indignações, a democracia, no seu disfuncionamento, acaba por ser nefasta aos seus próprios valores e objetivos. Mas também não defendo aqui, de modo algum, que esta seja suspensa ou cerceada.

Como cantava o Zeca, “o que faz falta é avisar a malta”, ou seja, é pela educação para o exercício de cidadania e para a participação democrática que os cidadãos e as comunidades se preparam para melhor defender os seus interesses e direitos, exercendo os seus deveres. E, apesar de se terem passado quase 40 anos sobre a revolução de Abril, ainda estamos longe de atingir esse nível de participação democrática. Na maior parte das nossas instituições, a começar pelas escolas, de um modo geral, os cidadãos (alunos e professores) têm uma participação cada vez mais reduzida nas decisões da organização: em nome de um mito de eficácia técnico-burocrática. Nas instituições políticas, muitas vezes, contam-se as vitórias pelo maior número de braços no ar e não tanto pelo elevado nível de debate e esclarecimento dos representados: tudo em nome do grande líder unipessoal que decide e executa com a confiança acrítica dos seus correligionários.

Chegados aqui, podemos dizer que a imagem é redutora da realidade. E é-o, de facto e propositadamente. Porque se tudo o que afirmei é uma triste realidade num número cada vez maior de contextos, o inverso também é verdade. Cada vez há mais cidadãos que, inseridos em múltiplas instituições e movimentos ad-hoc, fazem ouvir a sua voz e participam na construção de consensos. E é por isto que acredito na democracia: não a que nos legaram em Abril de 1974, mas a que faz parte do nosso presente e dos nossos compromissos individuais e coletivos. Contudo, convém estarmos atentos, a linha que separa a democracia da demagogia é, muitas vezes, de difícil apreensão. E a demagogia, associada à desilusão e descrença das massas populares, fica a um saltinho de regimes autoritários e totalitários. Cuidemo-nos!

Elvira Tristão

Professora



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