ELVIRA TRISTÃO, Professora
A democracia representativa está em crise. A ideia de que só é possível viver em democracia pela representação dos cidadãos por via dos partidos é cada vez mais fragilizada pelos episódios abundantes e transversais de abuso de poder, falta de transparência, gestão danosa do bem público, etc., etc.. Ao mesmo tempo assistimos ao desenvolvimento de movimentos de cidadãos que participam na vida pública, influenciando a tomada de decisão, assumindo claramente que o querem fazer à margem dos partidos políticos. Defendo que os regimes democráticos precisam dos partidos políticos, enquanto instituições representativas de modos de construir as sociedades assentes em ideologias, mas é saudável que os movimentos de cidadãos possam ter o seu lugar na ação pública. Contudo, nem sempre é linear e transparente que uma dada propositura seja independente no sentido de que tenha surgido verdadeiramente da iniciativa popular. E, por muito que os partidos políticos tenham de resgatar uma imagem de retidão, probidade e desapego aos interesses individuais junto dos cidadãos, iludirmo-nos com movimentos alegadamente independentes pode ser, como diz o povo, “pior a emenda que o soneto”.
E como os partidos não estão na moda, há um conjunto de chico-espertos que se servem deles quando lhes dá jeito e se demarcam quando lhes convém. Cada vez são mais numerosos os episódios de políticos que se dizem acima dos políticos – leia-se das estruturas partidárias – quando lhes cheira a votos. Cavaco Silva, no interregno entre o cargo de Primeiro-ministro e Presidente da República, demarcou-se dos políticos. No entanto, mais de metade da sua vida ativa foi no exercício de cargos políticos, carreira que iniciou no PSD. António Nobre, que não era político, encabeçou a lista do PSD para as últimas legislativas. Contudo, como não foi eleito Presidente da Assembleia da República, como aspirava, fez birra e virou as costas à política. No Cartaxo houve um presidente da câmara (de má memória) que foi militante e presidente da concelhia enquanto lhe deu jeito. Mas quando os militantes escolheram outro líder para a concelhia, fez birra e entregou o cartão do partido, acabando por entregar o cargo ao seu inexperiente e (também) “independente” vice. Esse, por sua vez, enquanto aspirou ser o escolhido, fez-se próximo do aparelho, fez-se convidado das atividades partidárias, sem, contudo, prestar contas e ser transparente para com o partido (vejam-se os dois orçamentos por si propostos sem que auscultasse o partido por que foi eleito, como dita a lei). Mal foi preterido, veio a terreiro denegrir o partido que lhe permitiu ser presidente de câmara substituto, o partido a cujo secretário-geral foi “pedir batatinhas”. Como que por magia (negra, certamente), demarcou-se do Partido Socialista e afirmou estar moralmente acima dos políticos assumidamente empenhados na vida político-partidária. Também Jorge Moreira da Silva, Vice-presidente do PSD, e coordenador para as autárquicas, encabeçou recentemente uma plataforma de cidadãos para a sustentabilidade, alegadamente um espaço de reflexão apartidária cujas bandeiras são as que o governo tem em mente mas não tem coragem de apresentar como suas.
Servem estes tristes apontamentos sobre os nossos “políticos” portugueses para alertar para o perigo de irmos na cantiga de acreditarmos nos “meninos de coro” que vão fazendo das suas dizendo que a culpa é dos partidos políticos. Essa gente que nos engana à descarada, servindo-se dos partidos como barriga de aluguer de ambições pessoais, armando-se em prima-dona ofendida quando os partidos não lhes fazem as vontades e apresentando nalguns casos tiques de tiranete (pequeno ditador) que são só uma amostra do que se pode esperar do poder que se lhes der.
Os partidos têm a vantagem de ser ideologicamente situados, de apresentarem uma visão para o tipo de sociedade por que pugnam, de terem regras para o exercício da democracia. Também têm os seus episódios menos dignos e personagens que lhes dão mau nome. Todos! Mas não são gato por lebre. E se achamos que os partidos são disfuncionais está na hora de lhes mudarmos as práticas. E, digo-vos, é possível. Basta invertermos as lógicas de participação pública trocando uma sociedade de chico-espertos por uma comunidade de cidadãos com voz!
Elvira Tristão
Professora




ELVIRA TRISTÃO, Professora


