ELVIRA TRISTÃO, Professora
Honrar a democracia é cumprir com honradez as missões em que somos investidos nos termos e prazos para os quais fomos sufragados.
Honrar a democracia é ser rigoroso com a verdade dos factos e não ofender os que pensam de outro modo.
Honrar a democracia é aceitar a participação dos outros nos processos que dizem respeito a todos.
Honrar a democracia é saber destrinçar quando falamos em nosso nome ou em nome dos que representamos, por sufrágio.
Honrar a democracia é compreender que as nossas decisões, em nome de todos, são objeto do escrutínio dos outros.
Honrar a democracia é saber aceitar o poder como uma missão a termo e sujeita ao juízo crítico dos outros.
Hoje temos obrigação de saber que a democracia não é uma madrugada de sonhos brindada com cravos vermelhos.
Sabemos, da pior maneira, que esperamos que a democracia se fizesse sem a nossa participação.
Convenceram-nos de que bastava votar e que a democracia era uma garantia conquistada na revolução de Abril, como quem passa um cheque em branco.
Hoje temos inúmeros exemplos – a todos os níveis e em todas as instituições – de que nem todos cumprem com honradez as missões para as quais são eleitos.
Sabemos, infelizmente, que todos os expedientes servem a quem quer conservar o poder pelo poder.
Assistimos a quem não sabe distinguir as suas posições e aspirações pessoais das obrigações dos cargos públicos em que foi investido.
Triste e miseravelmente, ouvimos muitos defenderem-se de justas críticas, chamando a si as honrarias das benfeitorias realizadas como um ato heroico quando não são mais do que uma obrigação mal cumprida.
Fede ao bolor salazarento que pensávamos enterrado há 38 anos, não porque assistamos a uma ditadura, mas porque as atitudes de muitos, de um modo transversal à nossa sociedade, são as de quem se julga senhor da verdade e investido dos poderes divinos de um regime que de democrático muitas vezes só tem a encenação dos rituais.
E os que se alheiam, como faziam no passado, os que dizem que os políticos são todos iguais, são tão responsáveis como todos os outros.
Precisamos de nos implicar honradamente na vida pública, fazer das decisões processos verdadeiramente democráticos. E se mais razões não houvesse, porque não é este país que desejamos para os nossos filhos.
Elvira Tristão
Professora




ELVIRA TRISTÃO, Professora


