ELVIRA TRISTÃO, Professora
Na antiguidade, os gregos decidiam regularmente quais os cidadãos que ficavam responsáveis pelo governo da Pólis, ou seja, do que se convencionou como o espaço do domínio público, cujos assuntos eram do interesse de todos os cidadãos. Foi a Grécia o berço da democracia, sistema político em que os governantes são escolhidos pelo povo e o representam por um período regular, sendo depois substituídos por outros cidadãos. À luz dos séculos é assim que definimos a democracia, ainda que saibamos que essa democracia não se estendia a todos os seres humanos na medida em que as mulheres e os escravos não participavam nos assuntos do domínio público.
Ontem como hoje, no mundo ocidental, a democracia não se exerce plenamente, apesar de se ter abolido a escravatura e de as mulheres já terem participação política há cerca de 100 anos. Simplesmente, o que hoje constitui uma barreira à democracia é um afastamento dos cidadãos da vida política, seja por que os cidadãos descreem das instituições que supostamente os representam, seja por que vivemos hoje numa sociedade de massas, onde o homem vê reduzida a sua identidade “à do cliente, votante, espetador ou escravo do dinheiro”, segundo o filósofo holandês Bob Riemen. De acordo com o pensamento deste filósofo, “o fascismo contemporâneo resulta, mais uma vez, de partidos que renunciaram à sua tradição intelectual, de intelectuais que cultivaram um niilismo complacente, de universidades que já não são dignas desse nome, da ganância do mundo dos negócios e de mass media que preferem ser ventríloquos do público em vez de o seu espelho crítico”. Creio que de tudo o que Riemen citou temos exemplos nos nossos dias, na nossa sociedade: máquinas partidárias voltadas para os prime time das TV’s e para as vitórias eleitorais a qualquer preço; alguns intelectuais de facciosismo evidente; universidades envolvidas em casos de idoneidade duvidosa; TV’s que reverberam o sonho de fama dos que despem a sua banal intimidade perante as câmaras. Enfim, temos de tudo. E nem nos faltam as vozes dos que clamam a necessidade de um líder com autoridade que saiba impor um único caminho, sem alternativa.
Face ao exposto, só me resta afirmar que vivemos num regime fascista. Não quero chegar a tanto. Alguns sociólogos e politólogos preferem – e eu concordo com eles – o termo “democracia de baixa intensidade”. Mas seria conveniente que soubéssemos identificar os sinais de uma sociedade que se fecha em perigosas inevitabilidades. Acho que ainda é possível isolar este “bacilo” que tem vindo a minar a nossa sociedade. Sendo necessário que para tal cada um de nós não abdique de exigir de si um esforço de vigilância em nome da democracia.
Para os partidos é necessário chegar aos eleitores e ganhar eleições, o que é legítimo. Juntemos a estas as preocupações as de explicitar claramente os princípios que orientam o tipo de sociedade que defendem, sabendo, no entanto, que esse exercício tem de ser feito dando voz a todos os militantes e simpatizantes em processos de mediação multiníveis.
Aos intelectuais é necessário que lhes confiramos o direito a uma participação que não tem de ser necessariamente alinhada, com profundidade de análise e capacidade de crítica construtiva às entropias das instituições. Se estes indiciarem algum tipo de alinhamento, que o assumam, sabendo exercer o direito ao contraditório sem estarem reféns das estruturas partidárias em que militam. Temos bons exemplos em todos os quadrantes políticos. Precisamos de mais e que os partidos não os ostracizem, pois fazem falta.
Os mass media, ainda que dependentes do poder económico e da promiscuidade deste com o poder político, ganhariam em apresentar outro tipo de projeto para a comunicação com os seus públicos. Em vez de se apostar numa sociedade espetáculo niilista, seria desejável que os media participassem na edificação de uma sociedade mais exigente, mais atenta, que incitasse à qualidade. Bastaria apenas que à garantia da sustentabilidade económica das empresas de comunicação social se juntasse a preocupação com a qualidade dos conteúdos e dos projetos.
Por fim, o mais importante: a política tem de deixar de ser definitivamente o palco da ganância dos negócios. A refundação do Estado não passa por abdicar das funções sociais deste, para que passem a ser negócio dos privados. A refundação do Estado passa por, de uma vez por todas, acabar a promiscuidade entre os políticos e o mundo dos negócios. E isto basta para que pensemos seriamente se os atuais políticos em funções executivas estão isentos de mácula a esse respeito. Se nos seus percursos (antes ou durante o exercício de funções executivas) deram corpo a casos de promiscuidade entre política e negócios, então, só podem contribuir para um deficitário funcionamento da democracia. Não servem.
A cada um de nós, cidadãos comuns, compete exigir que os nossos governantes sejam escolhidos pelas suas qualidades humanas e valores revelados, pelo seu percurso de vida que engloba diferentes dimensões (académica, profissional, política, comunitária), pelas suas competências comunicacionais, relacionais, executivas mas também pela sua maturidade política, que seja capaz de uma liderança reforçada na agregação de todos para um projeto comum ainda que – e desejavelmente – com visões diferentes mas complementares. É este o perfil dos líderes políticos que fazem falta ao país, às regiões autónomas, aos municípios e às freguesias. Só exigindo das instituições políticas líderes com este perfil poderemos estar a contribuir para uma democracia de maior intensidade, procurando evitar inevitabilidades. Porque, como diz Edgar Morin, “na democracia, o indivíduo é cidadão, pessoa jurídica e responsável; por uma lado exprimindo os seus votos e os seus interesses, por outro responsável e solidário da sua cidade”.
Elvira Tristão
Professora




ELVIRA TRISTÃO, Professora


