PUB

chamusca paulo betti

PUB

cms generico

ELVIRA TRISTÃO, Professora

Hoje em dia é frequente ouvir dizer aos políticos de profissão que não são políticos, o que desprestigia aquela que deveria ser a mais nobre das funções dos indivíduos em sociedade. Para quem ainda se lembra, Cavaco Silva demarcou-se dos políticos no interregno das funções de primeiro – ministro e presidente da república. Portanto, não é de admirar ouvir da boca de presidentes de junta de freguesia a tempo inteiro e com quase duas décadas de mandatos que não são políticos. Dizer que a culpa é dos políticos é receita que vai vingando neste país dos aflitos.

Pois eu, “pecadora, me confesso”, sou política. Porque assumo que tenho um ideal de sociedade; porque assumo o lugar que ocupo nesta e defendo o meu direito de participar na vida da comunidade em que me insiro; porque faço parte de uma sociedade cuja organização política me permite escolher os que melhor defendem os meus interesses em articulação com os dos meus concidadãos, ao mesmo tempo que enquadra formas de participação cívica que vão muito para além dos atos eleitorais. Enfim, defendo que a política trata dos assuntos de todos nós, do preço do pão, da educação do meu filho, da garantia de condições de vida dignas para todos, em suma, de um ideal de desenvolvimento e justiça social. E, por estas razões, defendo que todos somos políticos. Nos partidos ou fora deles.

Paul Massey afirma que “a negação da política é o vazio”, mas como este é a “negação da negação”, tal significa que em política não há lugares vazios. Significa isto, também, que haverá sempre homens e mulheres que se ocuparão dos assuntos comuns à vida em sociedade, no seio de partidos políticos, como no seio de organizações políticas pretensamente apartidárias ou nas grandes manifestações de rua que marcam momentos de grande tensão social e insatisfação face às decisões, que a todos dizem respeito, tomadas pelos poderes instituídos.

Dirão muitos, que se afastaram dos partidos (atores hegemónicos na política) e deixaram até de participar nos atos eleitorais, que estas instituições se deixaram corromper por interesses particulares e jogos de poder. E se isto é verdade também o é por demissão dos cidadãos. Se é verdade que os cidadãos se afastaram da política, também é verdade que os partidos, em muitos casos, se afastaram dos cidadãos.

Compete aos partidos pugnar para que as instituições políticas sejam representadas pelos mais capazes; pela sua ética e honestidade intelectual; pela defesa de princípios de transparência, justiça e probidade; pelas competências pessoais na gestão do bem comum e não dos interesses dos seus; pela visão clara e inequívoca de desenvolvimento dos seus territórios e respetivas populações.

Cabe aos cidadãos, que julgam ter um contribuo e uma palavra a dizer sobre o que defendem para a comunidade em que se inserem, integrar organizações políticas (partidárias ou não) na defesa do interesse de todos, sem se colocar em “bicos dos pés”, olhando para o seu umbigo, para ocupar lugares vazios deixados por quem voltou as costas à política.

Defendo que os partidos políticos têm um enorme capital de responsabilidade para a credibilização da política e que deverão ser as instituições mais transparentes no que respeita ao conjunto de princípios orientadores da organização social por que pugnam. Estou convicta de que não são instituições isentas de “culpas” mas que, com os mais capazes, poderão fazer da política a “arte do possível”.

Acredito que ainda é possível fazer da política um lugar onde não cabem só os “profissionais da política”, os “paraquedistas” ou os “inscritos” nos partidos. Porque não aceito lugares vazios para estes últimos, defendo que todos nós, políticos por condição humana, nos devemos “chegar à frente”, deixar a nossa “área de conforto” e dizer o que é que estamos prontos a fazer por todos nós.

Para que tal seja possível é urgente restaurar uma educação que vá para além da mera instrumentalidade económica; uma educação que combata a sociedade de massas, propícia ao “bacilo do fascismo”, com se lhe refere Rob Reimen citando Albert Camus. Cito, enfim, Reimen procurando resumir tudo o que anteriormente procurei dizer e que constitui de há muito o meu pensamento:

“A existência das instituições que deviam proteger-nos depende exclusivamente da confiança que os cidadãos lhe concedem. Quando se entrega o poder a demagogos e charlatães, que usam os mass media para cultivar a crença de que esse líder, o político que pretende ser contra a política, é a única pessoa capaz de salvar o país, as instituições constitucionais e democráticas desaparecem tão depressa como a confiança nas autoridades porque já ninguém acredita nelas”. (Neimen, Bob (2012) “ O eterno retorno do fascismo”, Bizâncio Ed.)

Elvira Tristão

Professora



PUB

PUB

PUB

Rede Regional

Slide backgroundSlide thumbnail

PUB

Quem está Online?

Temos 612 visitantes e 0 membros em linha