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ELVIRA TRISTÃO, Professora

Celebrado como o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o dia 10 de Junho obedece todos os anos a um ritual de comemorações onde não faltam as cerimónias protocolares de atribuição de medalha de mérito e os discursos evocativos.

Este ano a comissão organizadora foi presidida pelo reitor da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, que proferiu um dos discursos mais lúcidos e inspiradores que ouvi até hoje.

Consciente do poder relativo das palavras, António Nóvoa começou por advertir que as palavras não mudam a realidade, mas mudam seguramente a nossa consciência, após o que chamou a atenção para as crescentes desigualdades a que assistimos em Portugal. Na sua crítica ao Portugal de hoje denunciou o problema maior do nosso país, que é, segundo este um problema de organização, onde a burocracia e a promiscuidade entre os interesses públicos e privados têm sido geradoras de condições propícias à prática da corrupção.

Mas nas suas palavras nem tudo foram críticas. António Nóvoa fez questão de salientar os enormes progressos feitos por Portugal, nas últimas décadas, no domínio da educação e da investigação, na defesa da escola pública e na promoção de condições para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Adverte, todavia, que essa caminhada não está concluída; que para que Portugal tire partido do enorme investimento feito é necessário reforçar a ligação entre a universidade e a sociedade; que é necessário criar condições para que a inovação e a tecnologia incorporem os projetos empresariais do país. António da Nóvoa contraria, deste modo, a mensagem que tem sido dada pelos nossos governantes de que a solução para o desemprego qualificado está na emigração.

Evocando, entre outros autores, José Afonso, António Nóvoa exorta os portugueses para a necessidade de um “heroísmo das coisas básicas e simples” como o trabalho e o ensino, pilares em que deve assentar um país. No seu discurso, a Europa não é esquecida, salientando que a Europa não é a solução, antes é a nossa condição, mas alertando também avisadamente que “ou nos salvamos a nós ou ninguém nos salva”.

Pareceu-me um discurso inspirador do que se espera dos portugueses e dos governantes: aceitando a nossa condição europeia, mas sem nos esquecermos de quem somos e onde estamos, devemos assentar a “salvação” do país no trabalho e no ensino. Curiosamente os dois pilares nacionais mais desvalorizados a atacados nos últimos tempos por quem foi eleito para nos governar.

Nas televisões e nos jornais do dia seguinte ao das comemorações não houve ecos deste discurso tão lúcido e incómodo. Mas já estamos habituados ao silenciamento do que é incómodo pelos media convencionais. Por isso, decidi fazer eco deste magnífico discurso do reitor da Universidade de Lisboa. Porque todos somos poucos para contrariar uma narrativa do poder que, qual Cassandra, nos diz que temos de empobrecer e desistir de nós. Mas não é assim. E é preciso dizer bem alto, como fez António Nóvoa, “que a arrogância do pensamento inevitável é o contrário da Liberdade”.

Elvira Tristão

Professora



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