ELVIRA TRISTÃO, Professora
O dia 8 de Março é desde 1910 o Dia Internacional da Mulher em memória das 130 operárias têxteis que, em 1857,em Nova Iorque, morreram queimadas no interior da fábrica, que ocuparam para reivindicarem a redução do horário de trabalho de 16 para 10 horas diárias pelas quais recebiam um terço do auferido pelos seus colegas homens.
Muita coisa mudou desde então. Mas as conquistas ainda não permitem afirmar com segurança que há verdadeira igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Continua a haver situações de menor remuneração comparativamente aos homens no exercício de funções idênticas; continuam a ter de escolher entre a família e a carreira – o que não acontece com os homens em igual proporção; ascendem em menor percentagem aos lugares de topo, quer nas instituições públicas quer nas privadas.
No exercício de funções político-partidárias criaram-se medidas compensatórias para esta iniquidade de género, como é o caso das quotas femininas nas listas submetidas a sufrágio. Pese embora a boa intenção da medida e os efeitos produzidos, rapidamente a mentalidade machista de muitos – homens e mulheres – foi-se habituando a, à boca pequena, associar a sua participação ao género e não ao mérito, em exercícios ínvios de desqualificação das mulheres com participação político-partidária.
A pobreza e o desemprego continuam a afetar principalmente as mulheres. As que exercem profissões, na sua grande maioria, acumulam o trabalho fora de casa com a gestão familiar no que respeita aos filhos e às lides domésticas. Muitas têm de omitir que estão grávidas – quando possível – se forem a entrevistas de emprego; outras não veem renovados os seus contratos se engravidarem entretanto.
Hoje em dia celebra-se o Dia Mundial das Mulheres com flores, iguarias, presentes e até espetáculos de streap tease masculino (como se a maior aspiração da igualdade por parte das mulheres fosse ser igual aos homens no que têm de mais primário). Também celebro o Dia Internacional da Mulher, não para ser igual aos homens, mas para poder exercer os mesmos direitos em circunstâncias iguais.
É porque celebro o Dia Internacional da Mulher que não poderia deixar em branco dois acontecimentos, um pela positiva e outro pela negativa. Pela positiva relembro aqui os recentes avanços em matéria de defesa dos direitos de paternidade, em 2010, com a possibilidade de os pais poderem partilhar a licença de maternidade com as mães – tratou-se de um pequeno grande passo para a produção de alterações no exercício das responsabilidades parentais e, com isso, nas condições para a igualdade de género.
Já as recentes declarações do Cardeal D. Manuel M. de Castro põem a nu o modo como grande parte da sociedade portuguesa vê o papel da mulher na sociedade, responsabilizando-a pela educação dos filhos, da gestão do lar e do apoio ao marido. Mais do que pôr a nu uma mentalidade arcaica e iníqua de organização social, o cardeal alvitra políticas de “apoio à família” que eternizem a desigualdade de oportunidades ao invocar o género como critério para esse apoio, fazendo perdurar uma imagem que há muito não é compatível com as diversas composições familiares existentes atualmente. No entanto, não lhe ocorreu, por exemplo, que o aumento da idade para a reforma é um duro golpe para os avós que queiram participar na educação dos seus netos, reforçando assim as vivências em família alargada e a solidariedade intergeracional. A crise e a falta de emprego poderão fazer o resto, proporcionando aos governos conservadores pretextos para que a condição feminina na sociedade regrida no que são os direitos adquiridos pelas mulheres para o exercício pleno da cidadania na polis. A construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais sustentada requer a participação das mulheres no trabalho, na política, na família, na comunidade. Tanto quanto necessita dos homens.
O Dia Internacional da Mulher relembra a luta de 130 mulheres que pagaram com a vida a luta pelos direitos iguais, não a mercantilização da figura feminina com fins comerciais, não a festa pela festa, mas pela luta. Que o festejemos cada dia, zelando pela igualdade do género. E certamente os homens também ficarão a ganhar.
Elvira Tristão
Professora




ELVIRA TRISTÃO, Professora


