PUB

chamusca paulo betti

PUB

cms generico

Elvira Tristão

elvira tristao“Melhor educação”, escreve a coligação PSD/CDS-PP no seu jornal de campanha. Se não fosse um insulto à inteligência dos portugueses, talvez desse para sorrir, amargamente.

Falam do alargamento da escolaridade ao 12º ano, que concretizaram, como se estivessem a falar do seu programa. Na realidade, tratou-se de uma medida do PS, no âmbito dos compromissos internacionais, que não tiveram coragem de travar. A avaliação do desempenho docente é agora um processo burocrático sem qualquer préstimo a não ser o da disciplinação dos professores perante os diretores, cada vez poderes mais solitários, omnipotentes perante os subordinados hierárquicos e dóceis perante o poder central. As lideranças intermédias e a supervisão pedagógica são hoje uma impossibilidade em mega-agrupamentos com mais de 50 professores por departamento. O trabalho colaborativo e a colegialidade da tomada de decisão deram lugar a imensas burocracias sem utilidade ou eficácia na qualidade da educação.

Tornaram o inglês obrigatório no 1º ciclo, porque a sua introdução já tinha sido concretizada pelo governo anterior. Introduziram o reforço alimentar nas escolas depois de atirarem milhares de famílias para a pobreza. Fizeram dos exames a panaceia retórica da qualidade do ensino, quando, na realidade, hierarquizaram escolas e alunos, alimentaram o negócio das explicações (para onde atiraram os professores que despediram), reduziram o ensino e a aprendizagem a estratégias de preparação para os exames. Privatizaram a avaliação do inglês, descredibilizando os professores em vez de promover a sua formação no quadro comum de referência das línguas estrangeiras (que certamente desconhecem). Substituíram as metas de aprendizagem pelas metas curriculares, e substituíram programas, lançando o caos pedagógico nas escolas.

Empobreceram a escola pública para promover o ensino privado a complementar em vez da natureza supletiva que lhe conferem a constituição e a lei de bases da educação – vejam-se as turmas reduzidas nas escolas públicas em territórios onde se autorizam mais turmas no privado. A autonomia das escolas continua a ser uma ficção num sistema nunca tão centralizado como o que temos hoje. E essa centralização é que foi responsável pelo caos que se viveu na colocação dos professores no início do ano que agora terminou – e não os contratos de (pseudo)autonomia. No ensino superior há hoje menos 12 000 alunos e não se trata, ainda, de um problema demográfico. E na investigação foi possível lançar o caos e o descrédito como o que se viu com o vergonhoso processo de avaliação e financiamento das unidades de investigação.

Suspenderam a formação e educação de adultos num país que continua a ter das mais baixas taxas de escolarização da Europa. Dizem que reduziram os horários zero dos professores, quando, na realidade, desqualificaram de tal modo as condições de trabalho que os mais velhos preferiram antecipar as reformas com enorme prejuízo financeiro. Com os mais novos no desemprego, os horários zero só podiam reduzir. E não preciso de números para fazer estas afirmações. Todos nós os conhecemos, das nossas famílias, do bairro ou da rede de amigos.

A propalada descentralização da educação é uma manobra de diversão. Na realidade, os contratos interadministrativos, com 13 municípios escolhidos a dedo – os que não sofrem constrangimentos financeiros –, são uma forma airosa de alijar responsabilidades, mas manter o controlo e o poder de decisão, tratando os municípios como serviços periféricos da administração central e esquecendo que estes são “pessoas coletivas territoriais dotadas de órgãos representativos, que visam a prossecução de interesses próprios das populações respetivas” (artigo 235º da constituição). É tão ridículo que até delegam a elaboração de um “plano estratégico educativo municipal”!! Já para não falar dos investimentos que os municípios podem fazer em equipamentos que revertem para a administração central no fim do contrato! Mas o mais grave é mesmo o agravamento das desigualdades entre munícipes de diferentes concelhos em função do que cada um pode investir em educação. Como se não bastassem as enormes clivagens entre litoral e interior! Descentralização e autonomia, sim, mas feito por gente competente e a pensar na igualdade de oportunidades de um todo nacional.

O trabalho de Nuno Crato tem sido tão, mas tão demolidor da escola pública e das conquistas já alcançadas que não há hoje um professor, um pai ou um aluno que lhe reconheça qualquer mérito. Bem, isto se excluirmos os interesses do ensino privado, que viu o seu estatuto e financiamento reforçados, e a Universidade Cambridge que estendeu o seu braço neocolonialista ao velho aliado europeu. Tem sido tão mau o trabalho nesta área que até o presidente do IAVE vem dizendo que, apesar dos exames (ou talvez pela sua excessiva importância – digo eu), o ensino não está melhor.

A escola pública precisa de outro governo para ser levantada dos escombros onde este governo liberal nos modos e conservador nas ideias a enterrou. O ensino superior e a investigação precisam de ter condições para ver reconhecido o seu mérito e para desenvolver a sociedade e a economia portuguesas.

Não lhes basta o mal que fizeram ainda nos mentem dizendo que as escolas estão melhor do que nunca. Quanta desfaçatez! Se lhes dermos mais quatro anos teremos uma escola mínima de inserção para quem não pode escolher e um ensino privado sustentado pelos nossos impostos que só alguns continuarão a poder escolher.

 



Comentários   

0 #1 Mudar o Ensino 13-07-2015 20:39
O que tenho para dizer não se enquadra totalmente no assunto deste artigo, mas também não se desenquadra completamente; foi o título, "Melhor Educação", que me chamou a atenção, e é exactamente em prol de uma melhor educação que gostaria de deixar aqui uma sugestão de um sistema de ensino alternativo, que potencia grandemente a flexibilidade na escolha dos conteúdos a aprender, permitindo simultaneamente uma grande abrangência e uma grande especialização, consoante seja o desejo do aluno, e que elimina uma boa parte das injustiças e dos erros que se têm vindo a acumular no actual sistema de ensino. Fica, então, a sugestão:

http://porumnovoensino.blogspot.pt/p/blog-page_27.html
Citar

PUB

PUB

PUB

Rede Regional

Slide backgroundSlide thumbnail

PUB

Quem está Online?

Temos 403 visitantes e 0 membros em linha