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Elvira Tristão

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Desde 2011 que assistimos ao empobrecimento dos portugueses como se isso fosse uma penitência. Fizeram-nos acreditar que vivemos acima das nossas possibilidades e que agora não temos outra alternativa senão sermos espoliados no valor do nosso trabalho, nas nossas contribuições para o Estado e nos nossos direitos sociais (para os quais pagamos mais do que nunca).

Dizem-nos que não. Que pagamos para liquidar uma dívida que não contraímos. Uma dívida que, em nome da alegada “honradez” dos nossos governantes, temos de pagar às elites rentistas como se não houvesse amanhã. Nós que acreditamos nos valores da solidariedade entre os povos europeus. Nós que acreditamos que o 25 de abril existiu para que pudéssemos ter um Portugal mais democrático e mais desenvolvido. Eles, que acreditamos que o serviço nacional de saúde e a educação para todos, com igualdade de oportunidades, eram bens comuns conquistados no Portugal democrático.

Hoje questionamos muitos investimentos feitos pelos sucessivos governos de Portugal. As políticas do investimento no betão e nos quilómetros de autoestrada. As parcerias público-privadas que serviram para iludir a despesa do Estado e facilitar o encaixe de mais umas rendas para alguns que, estrategicamente colocados, participaram na sua conceção. Os milhões de euros vindos da Europa para que desinvestíssemos na nossa agricultura e indústria, em troco dos sinais exteriores de riqueza de gente com boas relações com o poder. A progressiva desregulação do setor financeiro que permitiu que muitos acreditassem ser possível pagar com o trabalho de uma vida (e com juros) o direito à habitação e a poucos acumular obscenas fortunas a coberto de offshores, com a cumplicidade de governantes e reguladores. A desertificação do interior do país e a degradação das nossas zonas costeiras em nome de um turismo predador…

Em nome da memória coletiva, assumamos que aqueles que hoje estão no poder não podem ser isentos destas e de outras responsabilidades. Sabemos bem quem foram os responsáveis pelo escândalo BPN e como, não só continuam impunes, como ainda são elogiados pelo topo da governação. Oliveira e Costa e Dias Loureiro foram os protagonistas dos negócios escandalosos que hoje os portugueses andam a pagar. As fraudes do BES e do dono disto tudo continuam impunes e a sair-nos dos impostos. Sabemos de quem foram ministros e conhecemos até alguns contornos duvidosos da compra de ações por quem tem as mais altas responsabilidades nacionais. . Sabemos que as fraudes do BES e do dono disto tudo continuam impunes e a sair-nos dos impostos. Sabemos da aquisição de terrenos para construção em zonas de proteção ambiental e de quem aí possui e construiu segunda habitação para veraneio. Sabemos da alternância de funções de governação e de facilitadores de negócios que fizeram dos apoios comunitários à formação profissional uma coligação de interesses e a sobrevivência política de algumas elites fabricadas nas juventudes partidárias. Sabemos de um criminoso negócio de contrapartidas na compra de imprestáveis submarinos que produziu condenações na Alemanha e na Grécia, que Portugal arquivou.

Prometeram-nos que não aumentariam os nossos impostos. E aumentaram. Prometeram-nos a diminuição da dívida. E aumentaram-na. Prometeram-nos a retoma da economia. E as nossas empresas faliram, o desemprego não para de aumentar e os nossos jovens (dos 20 aos 60 anos) mais qualificados foram obrigados a emigrar. Prometeram-nos a reforma do Estado. E esquartejaram-no ou venderam-no ao desbarato.

Reduzida à ilusão dos exames como medida de qualidade, a escola pública é hoje uma enorme máquina burocrática onde as relações de trabalho se desumanizaram. Os programas de formação cívica e de educação para os valores foram exterminados e, contudo, não questionamos o papel da educação numa sociedade cada vez mais egoísta, alienada e violenta. Os médicos, mal pagos, abandonam o serviço nacional de saúde ou acumulam horas para compensar os salários. Os doentes morrem nos corredores das urgências e esgotam-se os stocks de vacinas ou de fármacos essenciais. O sistema nacional de saúde foi desmantelado enquanto assistimos a contratos leoninos que garantem financiamento público aos grupos privados e obrigam quem ainda não é absolutamente pobre aos seguros de saúde.

No aparelho do Estado, as chefias e as bem pagas assessorias foram entregues a recém-licenciados em desmame das juventudes partidárias. Enquanto isso, quadros com experiência e formação adequada foram “emprateleirados” ou convidados à reforma antecipada. Os estudos e opções estratégicas são hoje encomendados a consultores que vão alternando as funções públicas com funções privadas, mantendo discreta atividade político-partidária.

Enquanto o maior partido da oposição constrói, com a sociedade civil, um verdadeiro programa alternativo de governo, apostado na valorização de Portugal e dos portugueses, na retoma da economia e no resgate do Estado aos interesses privados das elites rentistas, a coligação de governo persiste na narrativa de que não há alternativa. Mas não há alternativa a quê? Ao empobrecimento dos portugueses? À desvalorização do valor do trabalho? Ao desmantelamento dos serviços do Estado? Ao fim do serviço nacional de saúde e da escola pública? À existência de um Estado paralelo que nós pagamos para alimentar os que nos bebem o sangue?

Não nos venham com o discurso do medo! Não nos vendam uma estabilidade que não existe neste mundo de incertezas para a qual muito contribuíram as suas políticas! Não nos confundam com sondagens encomendadas por uma comunicação social que quase nunca é isenta – muitas vezes contra a vontade dos seus profissionais!

Em outubro temos oportunidade de manifestar a nossa indignação e escolher um Portugal mais decente. Até lá temos o dever de denunciar o que vemos, ouvimos e lemos e não podemos ignorar. Até lá temos o direito de exigir políticas alternativas e de as discutir. A política é a arte do possível, mas é também a capacidade de fazer escolhas em nome de todos nós. Por isso, temos de estar presentes no debate sobre essas escolhas, antes das eleições, e no seu escrutínio depois das eleições. Votar não chega, mas é essencial. Pois…a democracia é como a sorte: dá trabalho.

Elvira Tristão

Professora



Comentários   

0 #1 João Sardinha 26-05-2015 15:02
Muito obrigado, por este fantástico texto que, de forma tão clara, sintetiza o que muitos de nós sentimos mas muito poucos o conseguiriam exprimir desta maneira.
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