VÍTOR CATULO, cidadão eleitor (proativo) nº B-932

Quando há uns dias um amigo sugeriu-me que escrevesse alguma coisa na Rede Regional - “afinal tens uma vida de tantos anos cheia de experiências…  escreves umas coisas…” - achei o repto interessante. Aceitei.

Estava eu longe de imaginar no que me fui meter. Na verdade, entre o “escrever umas coisas” e o escrever alguma coisa, que se pretende ser algo com cabeça, tronco e membros, vai uma grande diferença. E a angústia tomou conta de mim. O acto da assunção de uma  responsabilidade é dilacerante.  Por educação primeiro e por (de)formação profissional depois, obriguei-me a fazer as coisas bem. Não entendo outra forma de as fazer. Não sabendo, prefiro não fazer e deixo-me eclipsar mudo e quedo. Por outras palavras: saio de fininho.

Escrever, escrever bem, não é um exercício mecânico de colocar palavras, é acima de tudo saber arrumá-las, tratá-las bem, casá-las com pontuação e dar-lhes um sentido. Desde que lhes demos o norte, elas desfilam altivas umas vezes ou tranquilas e elegantes, outras, em frases que hão-de ser odiadas ou amadas, mas recordadas sempre.

Um estudante perguntou certo dia a Saramago o que é que tinha de fazer para ser escritor. Respondeu-lhe o Nobel, lapidar: “ ler muito”.

Desde os meus tempos dos bancos da escola, em Lagos, que gosto de ler. Fui um pequeno rato da biblioteca da cidade e devorei livros, imensos livros! Tinha-lhes um apetite voraz! Tudo que tivesse letras provocava-me frenesim e aqueles rectângulos gordinhos e coloridos uns, de capa rija castanha e mais gordos, outros, perfilados nas estantes, exerciam sobre mim uma atracção quase patológica. Mas a paixão avassaladora dos primeiros anos mitigou-se com o tempo, transformou-se em amor e não me tornei escritor. Portanto, ler apenas, mesmo que muito, não chega, é pouco. É preciso algo mais, muito mais!

Quando escrevemos precisamos de um tema, de uma ideia. E até agora, confesso, quase um mês passado desde o desafio, estou sem tema e continuo vazio, sem ideia nenhuma. Frustrante!

Bem, não diria tanto! Entendam os leitores - faço votos que assim seja - a minha afirmação como um desabafo, em jeito de queixinha se quiserem, pois assuntos não faltam. São tantos como tantas são as trapalhadas com que os políticos nos brindam diariamente ou a catrefada de euros levados pelos nossos patriotas a voar para paraísos fiscais!  

Bem como são tantos os projectos adiados para Santarém, cidade onde me fixei vindo de terras de além mar há trinta e uns quantos anos, vivi mais de metade da minha vida, constituí família e servi, com honra, façam o favor de saber, sob o lema “pela ordem e pela pátria”. Assim, de uma penada, ou melhor, de uma teclada, refiro-me à apregoada requalificação do Campo Emílio Infante da Câmara, ou à restauração do Teatro Rosa Damasceno e do Café Central “em breve devolveremos este espaço à cidade”, emblemas de Santarém de outros tempos e que jazem agora feios e decrépitos, ano após ano, manchando esta que é classificada de “capital do gótico”.

Afinal, com este pequeno exercício de escrita, eis-me perante uma verdade incontornável: assuntos não faltam, quais ninjas em fúria tomam-me de assalto a cabeça, as palavras crepitam e à tecla solta por aí vou, mas… mandam as boas regras que não se mace.

Marquemos, pois, encontro para daqui a um mês. Até lá, fiquem bem! 

Vítor Catulo

Cidadão Eleitor (proactivo) nº B-932