Marco Domingos

A forma como tem decorrido a campanha eleitoral para as eleições do próximo domingo reflete na perfeição o beco sem saída a que chegamos. O vazio de propostas e alternativas ao atual estado. Com a abstenção a ameaçar atingir números históricos e o crescimento de votos brancos e nulos, é bem provável que o ato eleitoral de 25 de maio constitua um sério aviso, ou abanão, à classe política e ao dito “sistema”.

Os partidos do “arco da governação” dão o pior exemplo. Sócrates, sim (!) José Sócrates, é personagem principal num enfadonho e bolorento discurso de Rangel e Nuno Melo. Sem propostas à vista, o ex-PM é o tema central da campanha. Para além da contestação de que são alvo na rua, os candidatos da coligação não passam a mensagem, se é que existe mensagem. E no mais improvável dos cenários, Rangel amarra o Governo de Passos Coelho e garante que não haverá consequências políticas mediante o resultado destas eleições. Ou seja, carta branca para os portugueses penalizarem PSD/CDS nas urnas. Tiro no pé?

E do lado da “Mudança” os ventos que sopram também não auguram nada de extraordinário. A campanha do PS promete mudança, mas a campanha apenas tem sugerido que será mais do mesmo. Incapaz de descolar do rótulo de partido que abriu as portas à Troika, a campanha socialista apenas se propõe como elemento de alternância.

À esquerda, PC e Bloco tiram partido da estafada campanha socialista. João Ferreira e Marisa Matias representam esforçadas campanhas no terreno. São os únicos a querer discutir o maior problema do país, a Dívida Soberana. Mas como esse é um não assunto neste momento, há dificuldade de centrar o tema na “agenda”.

Surgem entretanto os mais pequenos partidos que prometem dar luta. Marinho Pinto e José Manuel Coelho arriscam votações históricas para MPT e PTP, respetivamente. E existe ainda a incógnita do LIVRE de Rui Tavares. Será provavelmente nos pequenos partidos que recairá a significativa maioria do “voto de protesto”. Neles e nos votos em branco. Será sobretudo o descontentamento popular a vencer as eleições do próximo domingo.

Num momento em que a Europa atravessa uma crise existencial, estas eleições podem (e devem) servir de sério aviso às cúpulas. O projeto Europeu precisa ser recentrado nas pessoas e nos seus direitos e o voto do próximo domingo pode ser o passo mais importante nessa longa caminhada.

Só depende de nós.

Marco Oliveira Domingos