NUNO PETINGA

Toda a gente sabe que os governos de direita têm uma acentuada tendência para privatizar, alienar, vender ou desfazer-se de património, empresas, bens, resumindo: para "vender os anéis".

Mas também toda a gente sabe que é difícil fazer bons negócios (para o Estado) em tempos de crise. A RTP é um dos casos que ameaça voltar a confirmar essa regra!

Há uns anos atrás, no tempo em que Morais Sarmento tinha a pasta da Comunicação Social, a RTP safou-se por pouco à alienação da Dois. No entanto, foi reconvertido num canal com programação mista, com conteúdos em parte vindos da "Sociedade Civil".

A meu ver, o verdadeiro serviço público vem, não da RTP, mas da Dois, quer pela diversidade dos conteúdos quer pela qualidade geral dos programas que emite. Logo, erro crasso nº1 é vender o único canal que faz serviço público.

A RTP propriamente dita, aquela que dizem que dá lucro há dois anos seguidos (com quanta injecção de capital é que era positivo saber), a mesma que paga fortunas absurdas a directores e subdirectores de informação, aquela que faz com que paguemos uma estúpida taxa audiovisual, quando muitos de nós ainda temos de pagar o serviço de cabo, aquela que não se distingue dos outros dois canais generalistas, a tal que serve apenas os interesses do poder, seja qual for a cor desse poder, essa mesma já devia estar privatizada há muito tempo!

Com todas estas características, a RTP dará certamente mais um bom canal privado, e de certeza que já há interessados em fazer negócio num canal desvalorizado por não ter, por exemplo, investido nos jogos da liga portuguesa. Desvalorizado pela fraca programação do último ano, tudo factores trabalhados com o intuito de fazer o valor da futura privatização cair para valores ridículos certamente, garantindo lucros chorudos a quem nela pegar nesta figura de "concessão".

A RTP é útil ao Governo enquanto canal público mas sê-lo-á ainda mais enquanto privado, já que resolve um problema crónico de despesa mantendo certamente a capacidade propagandística, já para não falar que servirá para colocar mais alguns amigos na administração ou lugares de gestão de topo. É apetecível portanto!!

Politicamente falando, a estratégia de colocar um consultor a falar à imprensa sobre o desenrolar de um processo de privatização delicado não passou da tentativa, eficaz, de criar uma cortina de fumo para desviar as atenções de outros temas mais pertinentes e importantes.

Nuno Petinga