JOSÉ CARLOS ANTAS

jose carlos antas A atual política de Saúde no nosso país é cada vez mais uma política Hospita-Lar. Porquê? Porque segundo a linha de orientação que tem vindo a seguir com inúmeros cortes e a “fuga” de pessoal qualificado, assim como, o encerramento efetivo ou deslocações de algumas valências nos hospitais públicos que estão previstas na Portaria 82/2014 de 10 de Abril, creio que muitos eventos desta natureza (entenda-se Saúde) venham a acontecer no nosso Lar, nomeadamente, o princípio e o fim, o nascer e o morrer. 

Eu espero sinceramente estar enganado, espero que seja algo ainda para ser estudado e “pensado” de forma coerente, estratégica e racional. Que as petições, manifestações e assembleias realizadas em torno deste problema consigam alertar para os problemas que daí possam surgir. Todavia, quando se está diante de uma portaria publicada em Diário da República não deixa de assustar, pois transparece que é um processo que está em avançada fase de implementação.

Não discuto que há, ou pode haver, valências que têm de ser restruturadas ou organizadas de um modo racional e menos dispendioso, nem que o esforço de algumas políticas é completamente em vão. Acredito também, que há realidades que têm de mudar, quer ao nível do controlo da despesa, quer ao nível do combate às fraudes que nesta área tanto lesaram (e lesam) o Estado e, consequentemente, todos nós.

O que eu desejo é que todos, sem exceção, possam ter acesso ao Sistema de Saúde, quer ao nível dos seus rendimentos, quer no aspeto da proximidade. Ou seja, não adianta uma pessoa estar isenta de taxas quando tem a consulta/serviço de saúde que necessita a 80km de distância ou, no outro caso, ter o hospital bem perto, mas ter de pagar uma taxa que lhe causa transtorno no seu parco rendimento.

Temos de valorizar o Ser Humano em detrimento dos números, assegurando a sustentabilidade do sistema. Por exemplo, um eventual encerramento da maternidade do Hospital Distrital de Santarém iria desencadear o negócio do Privado para quem pode e das parteiras (sabe-se lá em que condições) para quem não pode, ou então, as freguesias com mais nascimentos vão ser aquelas por onde passa a autoestrada (A1). Ora, num país onde nascem cada vez menos crianças, se não se criam as condições necessárias, esse número irá descer ainda mais, com a agravante da própria taxa de mortalidade poder aumentar para níveis há muito ultrapassados.

Por outro lado, se no princípio da vida poderá ser assim, também o final não será diferente, ou seja no Lar. Os internamentos são dispendiosos, os exames mais específicos que permitem diagnosticar as doenças precocemente poderão ser passados tardiamente, o que pode inviabilizar um tratamento mais eficaz. As longas horas de espera nas urgências, a politica do corta, opera, costura e vai para casa, pode dar espaço ao erro e a efeitos indesejáveis. As pessoas irão tardar a sua ida aos médicos cada vez mais para não gastar em exames ou medicamentos.

A população está envelhecida e quando se tem conhecimento que um idoso morre isolado da família e da sociedade, todos nós ficamos chocados quando a notícia surge na TV, mas isto é o que irá acontecer num povo onde os menos idosos irão cuidar dos mais idosos, dado que há cada vez menos jovens e uma parte da nossa população ativa emigra. Só para termos uma ideia, os dados no site “PORDATA” indicam que o município de Santarém tem cerca 159 idosos por cada 100 jovens, em Portugal, no seu total, este índice baixa para 129 idosos por cada 100 jovens.

Sinceramente, gostaria e tenho esperança que as coisas melhorem, dado que sou otimista por natureza, mas penso que Portugal tem ainda de passar por muitas provações para contornar esta crise e as consequências que dela ou da sua “cura” advieram.

O que nunca pode acontecer é deixar de se cuidar das pessoas.